Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

Terapia

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– Como se sente?
– Cansado!
– E a respeito do que conversamos na semana passada?
– Devia mesmo ser pela carga emocional que reprimia… depois que falamos sobre isso, só tomei um copo de cerveja no fim de semana.
– Que continue assim. O meu intuito não é tirar de você o prazer de viver, mas o pesar. O que fez hoje?
– Nada, estou de folga.
– E por que o casanço?
– Não saberia explicar, mas sabendo que o senhor já tem a resposta, esperarei por ela.
– É um prazer, Cláudio: continua reprimindo o que há por dentro; bebia pra não sentir, e se não bebe, sente!
– Foi por costume, você sabe… anos atrás, eu me via nesse dilema emocional: “sofrer ou não sofrer?”, eu me perguntava. Tudo o mais era bom demais para ceder à primeira alternativa, então, escolhi a segunda. Hoje, a razão pela qual me atolei na bebida parece um rabisco negro entre sombras.
– Valeu o esforço?
– Até onde sei, quem está lucrando com isso é você.
– Devíamos trabalhar nessa sua característica sarcástica, também!
– Isso quer dizer que eu feri os seus sentimentos?
– Não se preocupe com  isso, eu também faço terapia.

Written by cykantode

28 de fevereiro de 2010 at 6:00 PM

Publicado em Crônicas

Ritual Diário

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Aquilo se tornara um ritual diário: acordava, ajeitava meu quarto e ia para a cozinha tomar café da manhã. A essa hora, ele aparecia. Pousava na antena do vizinho, de forma que tinha toda a visão do que eu fazia: via-me esquentando o leite no micro-ondas, pegando uma fatia de pão de forma no armário, retirando a xícara do aparelho, passando manteiga na fatia de pão…

Ele observava a tudo discretamente, até que sentia a necessidade de ser visto. Do alto da antena, enchia o peito e cantava:

– Bem-ti-vi! Bem-te-vi!

Eu, então me levantava de minha cadeira e saía no quintal para vê-lo:

– Oi, querido! Você já chegou?!

– Bem-te-vi! Bem-te-vi! – ele respondia animado.

– Como estão as coisas?! – dizia sorrindo – Quer pão?!

– Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Não me lembro ao certo quando aquele Bem-te-vi começou a me visitar, só sei que ele me fazia muito bem. Era ótimo ter contato com a natureza, ainda mais vivendo em uma selva de pedras como São Paulo. Sem contar que o fato das visitas se tornarem diárias, me fez sentir especial de alguma forma. Era tão bom saber que aquele serzinho de peito amarelo vinha me visitar, sem exigir absolutamente nada em troca…

– Bem-te-vi! – ele cantava!

– Bem-te-vi! – eu assobiava.

Então, ele voava.

E eu… Bem, eu ficava a esperar a visita do dia seguinte.

Written by Fernanda Rodrigues

21 de fevereiro de 2010 at 12:09 PM

Publicado em Narrativa

E-mail a um amigo

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Esta noite não consegui dormir.

Talvez tenha sido a ansiedade em te ver, em saber que iríamos nos reencontrar, após tanto tempo de separação. Você na Europa, estudando e trabalhando. Eu no Brasil, também estudando e trabalhando.

Para você foi duro não ter ninguém para abraçar, chorar e sorrir durante pelo menos seis meses, o tempo necessário para confiar em alguém. Para mim, foi duro olhar para a cadeira ao lado, na classe, e não te ver com um sorriso brilhante no rosto, rindo das matérias difíceis e dos alunos idiotas ao fundo.

Para mim, foi duro não ter alguém para lanchar nos intervalos e jogar papo fora. Foi duro não ter meu poço de cultura inútil, sempre dividindo impressões sobre livros, filmes e seriados.

Para você, foi duro ouvir mina voz somente por um fio de telefone. Foi duro não poder ver o brilho de meus olhos felizes por suas conquistas. Foi duro somente trocar e-mails diariamente.

Para nós, foi duro não poder sentir o cheiro e o calor um do outro.

Mas hoje, finalmente, iremos nos reencontrar. Não sei descrever a fome que minha alma tem da sua. Não sei como será te ver, te abraçar e chorar em seus ombros. Sim, irei chorar. Tudo parará e esqueceremos do mundo.

Antes de ir até onde combinamos, precisava te mandar este email, tentando expressar o que estou sentindo agora, se é que isso é possível.

Amigo, espero-te como uma boca sedenta por água. Espero-te como  um pulmão impedido de respirar. Amigo, simplesmente espero pelo seu sorriso.

Written by isaquecriscuolo

31 de dezembro de 2009 at 12:40 PM

Publicado em Crônicas, Poética

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Tensão do Vestibular

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É engraçado analisar as pessoas quando vou fazer uma prova de vestibular. Sempre escolho um vestido folgado e uma rasteira, pego uma garrafa de água, meu documento de identidade e duas canetas pretas. Apesar de tudo e de realmente sentir-me preparada para passar apenas quatro horas em uma sala, grande parte das pessoas que vejo quando chego ao local da realização da prova estão quase prontas para uma maratona de quarenta dias e quarenta noites no deserto. São sacolas cheias de comida, duas garrafas de água, tênis para esportes, casacos para caso faça frio nesse bendito sol de trinta graus de Brasília e coisas absurdas que só vendo para acreditar.

Tudo bem, a partir desse momento já estou sentindo-me completamente despreparada perto da maioria. Até o vestibulando com cara de mais perdido nesse momento me parece o mais inteligente e estudioso, começo a ficar paranóica e a partir de então mesmo aquele pentelho do fundo da sala que estuda comigo, que eu tenho certeza de que não aprendeu porcaria nenhuma, parece saber muito mais. Começa a dar uma angústia, eu já entro em sala com o suor na testa antes de olhar para as outras pessoas. Do meu lado esquerdo um super nerd que provavelmente estuda química por diversão, óculos fundo de garrafa e suéter em pleno verão. Eu sei que é exatamente esse cara que devo temer e nesse instante o pobre coitado já até notou que estou encarando-o com uma expressão assassina e desafiadora. Do outro lado uma garota muito loira, cheia de pulseiras coloridas, mini saia, maquiagem rosa e até o esmalte que ela usava estava me cegando. Fico mais tranqüila, ao menos mais que a patricinha eu deveria saber… Espero!

Então entregam a prova. A primeira coisa é o instrutor colocar medo em todo mundo na sala que nunca fez um vestibular, tudo parece com as instruções de segurança de um avião e me faz apenas ficar mais nervosa do que já estava. Olho para o cartão de resposta que até então parecia simples e tudo começa a soar complexo como um problema matemático e acho que a garota loira do meu lado pensa do mesmo jeito. Está tudo bem, tranqüilizo-me respirando fundo. Começa a prova, respondo toda a parte de língua estrangeira, estou indo bem perto da loira que faz uma expressão de perdida, mas o nerd do lado esquerdo está fazendo um problema gigante de matemática nesse momento. Alguns dos preparados para a excursão no deserto começam a desempacotar chocolates lentamente no fundo da sala, outros misteriosamente pegam um resfriado e seus narizes escorrem. O barulho me irrita, mas passo bem pelas questões de história, geografia, português, artes e filosofia. Na segunda parte pulo tudo que tem números no meio e respondo algumas de biologia. Minha redação fica boa, apesar deu ter a certeza de que sob pressão não ficou tão boa quanto poderia.

Acaba, entrego, saio com o a prova e com um sorriso no rosto. Tenho certeza de que fui bem, até ver o maldito nerd que ficou na minha sala comentar com o amigo igualmente nerd que só não respondeu duas questões. Bem, não adianta se desesperar, agora é o momento de esperar o resultado para saber se passou ou não na prova. Mas apesar de tudo acho que a loirinha que saiu com uma cara de interrogação vai precisar esperar pelo próximo vestibular.

Written by Raila Spindola

14 de dezembro de 2009 at 10:41 AM

água

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A música de fundo daquela festa mencionava amores além-vida… Bárbara repousava as mãos no colo, sobre o vestido branco, e descordava, ou ao menos desejava que depois de sua morte, não fosse julgada pelos seus convidados por nenhuma volúpia sentimental, cujo controle, não possuia.
– Essa festa está tão horrivelmente chata… – Mencionou à melhor amiga.
– É a sua festa de despedida … se divirta – beijou a sua face e tornou à conversar com outros.
Ao ser levada tão longíquamente em seus pensamentos daquele lugar, vislumbrou um rosto familiar na varanda da recepção onde estava. O mesmo a chamava, com uma garrafa na altura do ombro, por detrás do vidro, e sorria sedutoramente.
Abriu a porta, e a sua encharpe e saia voaram alto, e foram contidas pelo rapaz, que pegou-le a mão, e a levou para a beira de um rio que corria 300 metros dali.
– Você está me perseguindo, não é? – Disse ela…
– De forma alguma… eu trabalho muito para perder meu tempo de descanso atrás de lindas mocinhas…
– Ao que me parece, sim… veio de terno, ainda que o esteja vestindo desleixadamente, mas obrigada pelo elogio.
– Tire os sapatos, agora – Disse ele, dando um longo gole na bebida… – E não faça essa cara… quero dar um mergulho no rio com você…
– Tudo bem – empolgada e segurando as mãos – mas eu vou de roupa, já que está muito frio…
– Você quem sabe…

Chegando lá, ela estava embreaga… a presença daquele a quem ela havia visto inúmeras vezes na rua soava como uma refrescante novidade, e com ele, havia fantasiado por meses…
– Então, você é mesmo um espertinho… trabalha na gráfica de convites…
– Você adivinhou… – e beijou-a.
Com isso, ela permitiu que a garrafa caisse no chão, e atingisse seus pés… o sangue escorria pela areia, e foi tomada em seu colo, para limpar o ferimento na água…
– Essa noite não deveria terminar em sangue, com uma lua tão linda no céu… – Disse ele…
– Não me importo… nem senti que estava machucada e pelo visto, vai chover.

Ainda tonta pela bebida, foi solta na beira do rio, com água batendo em seu joelho, e o rapaz à deixou ali para tirar o paletó, sapatos e gravata em local seco… ela fez um gesto de liberdade, deixando-se cair na água, de braços abertos e rosto para o céu, e então, tendo batido a cabeça numa pedra, sangrou até a morte, lindamente, como uma água-viva banhada pela garôa crescente.
O rapaz retornou, e logo se deparando com a situação, sentiu estranha revolta.
Recolheu tudo o que tinha e caminhou despreopado, para que a chuva lavasse os rastros de uma morte que o mesmo tinha em mente cometer.

Written by cykantode

28 de novembro de 2009 at 6:04 PM

Publicado em Crônicas

Gramática

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Uma coisa que acho engraçada a respeito da língua portuguesa é a forma como as escolas, depois de tantos anos, ainda conseguem ensinar tudo da forma mais difícil possível. Fico revoltada com o fato de ser muito mais importante decorar todas as malditas regrinhas da gramática de que aprender a construir uma frase corretamente. Certo, talvez eu esteja sendo completamente implicando simplesmente por nunca ter conseguido aprender isso direito e, por favor, não me peçam para fazer uma análise gramatical de frase alguma, provavelmente não vai sair muita coisa além do básico.

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Não é me gabando, mas conheço pessoas que sabem todas as regras da gramática e não escrevem um texto coerente, que perdem e muito pras minhas frases e meus textos. O motivo disso é a leitura, não adianta você ter feito curso de coisa alguma se não exercitar, isso só leva a esquecer. As palavras foram feitas para a comunicação, acho completamente dispensável saber classificar palavras se consegue fazer com que as outras pessoas compreendam completamente. As coisas não precisam necessariamente ser de total aceitação gramatical desde que sua mensagem esteja sendo passada.

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Se eu sei escrever textos formais ou complexos? Sim, eu sei, apesar de que poderiam demorar um pouco mais, só não vejo essa necessidade, não em algo com o objetivo de divertir e distrair como crônicas. Espero apenas que quem for acompanhar possa se deliciar um pouco e talvez até rir com o pouco que tenho a dizer, verídico ou não. Sejamos simples, diretos e acima de tudo práticos de agora em diante.

Written by Raila Spindola

27 de novembro de 2009 at 8:45 PM

Publicado em Crônicas

Crônica da Despedida

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Era uma quinta-feira e eu estava como de costume fazendo as mesmas coisas que fazia diariamente, ela estava sentada na sala com uma das pernas apoiada no sofá.

– Dói? – Perguntei me aproximando dela.

– Agora não mais. – Ela me respondeu com aparente calma.

Voltei aos meus afazeres, sem muito entusiasmo, queria mesmo era deitar e adormecer, a madrugada já tinha sido tensa.

– Vamos? – Ouvi alguém falar na sala com ela. Ela, então, levantou-se devagar e me olhou.

– Vá! – Eu disse – E me ligue assim que terminar.

Ela concordou e se foi.

Terminei o que tinha de fazer e fui para cama, meu corpo estava pesado, e eu não via a hora de dormir um pouco. Deitei e fechei os olhos, o sono não demorou a chegar.

– Ué! Já chegou? – Eu disse abrindo os olhos. Ela estava parada na porta do quarto, vestia branco e carregava um estranho olhar sereno.

– Na verdade… Estou indo agora. – Ela sorriu.

– Para onde? – Perguntei aproximando-me dela.

– Para longe! – Exclamou e, ainda sorrindo, me envolveu em um terno abraço. – Jamais esqueça o quanto te amo.

– Jamais esquecerei. – As lágrimas rolaram livremente pelo meu rosto.

E então o telefone tocou, acordei com o susto do barulho do aparelho e titubeando fui atender.

– Alô?!

– Ela se foi… – Uma voz chorosa falou comigo.

– Eu sei… – disse calma – Ela veio se despedir de mim. – Desliguei o telefone, sentei no sofá e deixei que as lágrimas corressem por minha face.

Written by carolinesantos

24 de novembro de 2009 at 3:36 PM

Publicado em Crônicas