Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

Archive for the ‘Narrativa’ Category

Hoje

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Hoje o dia está agradável. E não é aquele agradável de frio com sol, um clima agradável que nos arrasta para lembranças bem-feitas e uma nostalgia maravilhosa. É um agradável diferente, daqueles que acontecem quando no dia anterior ficamos com dor no rosto e na barriga de tanto dar risada. Daqueles dias agradáveis trazidos por noites leves. Daqueles em que o dia parece agradável por nós mesmos e não por si só. Um dia que vem de dentro pra fora e não de fora pra dentro.
Agora, estou aqui no trabalho e, ainda com coisas para fazer, me reencontro perdido em diversos pensamentos e lembranças de coisas que se passaram há pouco e vejo que muito do que foi feito/dito/pensado não tem sentido. Ou melhor, muitas dessas coisas tem sentido; mas o sentido delas não é o que deveriam ter, que a fundamentação delas está errada.
A gente vive em um turbilhão, arrastados por um caos que vai sempre se extendendo e ficando mais forte. Um cíclo vicioso. E não existe momento de quebra ou interrompimento desse turbilhão. O único jeito de escapar é saindo sozinho. E quando escapamos por um segundo, somos obrigados a pular novamente nesse círculo dantesco. Não conseguimos ver as coisas que passam, não conseguimos pensar no que vemos: não há nada a se fazer, só deixar que o acaso nos conduza ao seu bel prazer.
Mas nem tudo é acaso. Existem forças também. Forças de resistência — as nossas forças de resistência. O balanço vem desse confronto das nossas forças com forças externas.
Conseguimos pular novamente para fora da vida e dessa vez temos tempo de olhar e pensar tudo que se passa. Temos tempo de esquecer do trabalho, do TCC, das aulas e cursos, e de todo o resto. Aí nos sobra todo o tempo do mundo pra olhar bem no fundo de tudo e abrir um sorriso — de orelha à orelha, ou um sorriso tímido — e, quando isso acontece, o dia fica agradável.

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Written by Fernanda Rodrigues

27 de abril de 2010 at 12:34 PM

Vida é…

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Era de manhã. Lá pelas sete e meia da manhã. E tava todo mundo no ônibus, indo pra cidade. Típico dia de semana, em que todo o mundo, ao mesmo tempo, resolve pegar o mesmo ônibus. Por sorte consegui um lugarzinho sentado. Não era janelinha e nem a paisagem era boa, muito menos me servirão comida; mas qualquer toco de árvore, se possível encontrar ali, seria melhor do que ter que ficar, além de tudo, em pé.
O tempo passou. E passou. E passou…
Dez, quize, vinte, trinta, quarenta minutos dentro do ônibus e enfim!, Parque Dom Pedro. Agora era só mais um ônibus pra se chegar no trabalho!
Bom… fila. E depois mais fila. Subir no ônibus. Passar a catraca. Sentar não muito longe da porta da saida, porquê se não depois pra ir da frente do ônibus até o fundo é mais tempo do que pra ir de casa para o trabalho. Enfim… ritual de praxe
Finalmente, o motorista resolve sair.
A cobradora agora abre o jornal agora e começa a fazer as palavras cruzadas e ler as tirinhas.
O figuraça atrás resolve que já é hora de colocar o celular pra tocar aquela música que só ele gosta. Se vale daquele princípio de tornar as desgraças ainda mais desgraçadas para ver se alivia a dele.
Começa o trânsito. Tudo parado em todo lugar. Os ônibus que cruzam essa avenida param na frente dos que seguem. Aí param os de trás (nas duas ruas).
E assim fica.
Dez, quinze, vinte, trinta minutos até que de pouquinho em pouquinho eu consigo descer no meu ponto.
“Tô atrasado…” é o que eu sempre penso quando isso acontece. “Vô tomá outra carcada”
Aí eu dou uma acelerada no passo. Passo no meio dos carros fazem fila lá pra trás da rua pra atravessar a calçada.
Ando mais um pouquinho.
Pego o elevador.
Finalmente! estou no trabalho. Dez minutinhos atrasado, mas é desculpável, eu cheguei!
Vejo meu chefe passando lá no fundo e vejo que muda o caminho pra vir aqui falar comigo.
“Eduardo!, aonde é que você tava? Tá todo mundo aqui querendo tomar café pra começar o dia e você sumiu. Faz o seguinte. Faz logo o café e passa na minha sala pra pegar dinheiro pra sair: Preciso que você vá comprar dois maços de cigarro. Um Marlboro vermelho pra mim e um Carlton branco pro Élcio.”

Written by Fernanda Rodrigues

9 de março de 2010 at 10:55 AM

Ritual Diário

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Aquilo se tornara um ritual diário: acordava, ajeitava meu quarto e ia para a cozinha tomar café da manhã. A essa hora, ele aparecia. Pousava na antena do vizinho, de forma que tinha toda a visão do que eu fazia: via-me esquentando o leite no micro-ondas, pegando uma fatia de pão de forma no armário, retirando a xícara do aparelho, passando manteiga na fatia de pão…

Ele observava a tudo discretamente, até que sentia a necessidade de ser visto. Do alto da antena, enchia o peito e cantava:

– Bem-ti-vi! Bem-te-vi!

Eu, então me levantava de minha cadeira e saía no quintal para vê-lo:

– Oi, querido! Você já chegou?!

– Bem-te-vi! Bem-te-vi! – ele respondia animado.

– Como estão as coisas?! – dizia sorrindo – Quer pão?!

– Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Não me lembro ao certo quando aquele Bem-te-vi começou a me visitar, só sei que ele me fazia muito bem. Era ótimo ter contato com a natureza, ainda mais vivendo em uma selva de pedras como São Paulo. Sem contar que o fato das visitas se tornarem diárias, me fez sentir especial de alguma forma. Era tão bom saber que aquele serzinho de peito amarelo vinha me visitar, sem exigir absolutamente nada em troca…

– Bem-te-vi! – ele cantava!

– Bem-te-vi! – eu assobiava.

Então, ele voava.

E eu… Bem, eu ficava a esperar a visita do dia seguinte.

Written by Fernanda Rodrigues

21 de fevereiro de 2010 at 12:09 PM

Publicado em Narrativa