Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

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Terapia

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– Como se sente?
– Cansado!
– E a respeito do que conversamos na semana passada?
– Devia mesmo ser pela carga emocional que reprimia… depois que falamos sobre isso, só tomei um copo de cerveja no fim de semana.
– Que continue assim. O meu intuito não é tirar de você o prazer de viver, mas o pesar. O que fez hoje?
– Nada, estou de folga.
– E por que o casanço?
– Não saberia explicar, mas sabendo que o senhor já tem a resposta, esperarei por ela.
– É um prazer, Cláudio: continua reprimindo o que há por dentro; bebia pra não sentir, e se não bebe, sente!
– Foi por costume, você sabe… anos atrás, eu me via nesse dilema emocional: “sofrer ou não sofrer?”, eu me perguntava. Tudo o mais era bom demais para ceder à primeira alternativa, então, escolhi a segunda. Hoje, a razão pela qual me atolei na bebida parece um rabisco negro entre sombras.
– Valeu o esforço?
– Até onde sei, quem está lucrando com isso é você.
– Devíamos trabalhar nessa sua característica sarcástica, também!
– Isso quer dizer que eu feri os seus sentimentos?
– Não se preocupe com  isso, eu também faço terapia.

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Written by cykantode

28 de fevereiro de 2010 at 6:00 PM

Publicado em Crônicas

água

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A música de fundo daquela festa mencionava amores além-vida… Bárbara repousava as mãos no colo, sobre o vestido branco, e descordava, ou ao menos desejava que depois de sua morte, não fosse julgada pelos seus convidados por nenhuma volúpia sentimental, cujo controle, não possuia.
– Essa festa está tão horrivelmente chata… – Mencionou à melhor amiga.
– É a sua festa de despedida … se divirta – beijou a sua face e tornou à conversar com outros.
Ao ser levada tão longíquamente em seus pensamentos daquele lugar, vislumbrou um rosto familiar na varanda da recepção onde estava. O mesmo a chamava, com uma garrafa na altura do ombro, por detrás do vidro, e sorria sedutoramente.
Abriu a porta, e a sua encharpe e saia voaram alto, e foram contidas pelo rapaz, que pegou-le a mão, e a levou para a beira de um rio que corria 300 metros dali.
– Você está me perseguindo, não é? – Disse ela…
– De forma alguma… eu trabalho muito para perder meu tempo de descanso atrás de lindas mocinhas…
– Ao que me parece, sim… veio de terno, ainda que o esteja vestindo desleixadamente, mas obrigada pelo elogio.
– Tire os sapatos, agora – Disse ele, dando um longo gole na bebida… – E não faça essa cara… quero dar um mergulho no rio com você…
– Tudo bem – empolgada e segurando as mãos – mas eu vou de roupa, já que está muito frio…
– Você quem sabe…

Chegando lá, ela estava embreaga… a presença daquele a quem ela havia visto inúmeras vezes na rua soava como uma refrescante novidade, e com ele, havia fantasiado por meses…
– Então, você é mesmo um espertinho… trabalha na gráfica de convites…
– Você adivinhou… – e beijou-a.
Com isso, ela permitiu que a garrafa caisse no chão, e atingisse seus pés… o sangue escorria pela areia, e foi tomada em seu colo, para limpar o ferimento na água…
– Essa noite não deveria terminar em sangue, com uma lua tão linda no céu… – Disse ele…
– Não me importo… nem senti que estava machucada e pelo visto, vai chover.

Ainda tonta pela bebida, foi solta na beira do rio, com água batendo em seu joelho, e o rapaz à deixou ali para tirar o paletó, sapatos e gravata em local seco… ela fez um gesto de liberdade, deixando-se cair na água, de braços abertos e rosto para o céu, e então, tendo batido a cabeça numa pedra, sangrou até a morte, lindamente, como uma água-viva banhada pela garôa crescente.
O rapaz retornou, e logo se deparando com a situação, sentiu estranha revolta.
Recolheu tudo o que tinha e caminhou despreopado, para que a chuva lavasse os rastros de uma morte que o mesmo tinha em mente cometer.

Written by cykantode

28 de novembro de 2009 at 6:04 PM

Publicado em Crônicas

Malas Prontas

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Desci no ponto de ônibus às 16h, na praia de Baía Formosa. Avistei ao longe, como todo bom viajante, o azul do mar e suas jangadinhas coloridas na água. Coloquei-me à abrigar debaixo de uma sombra, e esperei em vão ser buscada pelo alguém, então tirei um papelzinho com o endereço de interesse do bolso, e fui andando pelo calçamento com dificuldade e muito calor… “Vestido preto e plataforma não foram boas escolhas”. Cruzando ruas de casinhas coloridas, vi-o no meio de uma pracinha – o sempre atrasado –  vindo de encontro a mim, e logo pegando minha mala e segurando minha mão, disse que estava feliz com minha presença, e me levou até o seu condomínio. O pequeno prédio parecia ser o mais moderno do vilarejo, e porta a dentro, um quase que extenso cômodo com uma cama de casal e a cozinha, uma porta para o banheiro e janelas com a linda vista.

Estavamos deitados da cama, conversando sobre assuntos sem importância, quando revelou-se à razão de ter se mudado mais do que da cidade grande, de mim… até aquele momento, nem havia tirado as sandálias, mas num pulo, decidi-me pegar o maiô na mala e dar um mergulho no mar.  Eu não queria pensar em nada que ficou no passado, e esperava não ter trazido aquele ou outros lugares dentro de mim… Aproveitamos bem o fim de tarde e o começo de noite. Ele parecia diferente e leve como uma pluma: uma outra pessoa… aquele com quem eu desejára viver.

O céu se fez num tom rosa e azul marinho, e antes da escuridão total, me retirei da água e sentei numa pedra. Estava invadida pela paz da paisagem e dos sons dos pássaros na mata da Estrela, atrás de nós, e pude perceber a minha própria mudança interna como produto da vista que me encarava.

De volta para o apartamento, cozinhei macarrão à bolonhesa e captei a vida noturna da cidade pela janela. Ele  abraçou-me por trás e perguntou-me se iria viver ali e eu respondi que “sim” com um sorriso no rosto, e uma passagem vitalícia de volta para a vida que eu conhecia na bagagem.

Written by cykantode

24 de novembro de 2009 at 11:10 AM

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Espuma

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Fechei a porta atrás de nós, deixando o resto da casa e do mundo em esquecimento. Abri o chuveiro, e permitindo que a àgua escorresse por uns minutos, sugeri que ela viesse junto a mim… Segurei o rosto dela e experimentei mais uma vez no seu beijo, o sabor doce da lagoa onde estavamos…
Trajes de banho depois, debaixo do chuveiro, fiz o agradável exercício de escolher o sabonete mais aromático, e espumei-o nas mãos de modo que fosse delicioso massagear a sua cintura. Ela se virou, agarrando-se nos meus ombros, e sussurrou no meu ouvido que “Isso é tão bom…”, então, por um momento repousou a cabeça em meus braços… e de fato o era.
Assim, lembrei-me da caminhada que fizemos do nosso passeio até em casa. Eramos minuscúlos debaixo da imensidão estrelada do céu noturno. A escuridão que circunda a terra estéril de sentido, faz-me sentir, então, esse passageiro momento de perfumes e bolhas como enebriante para o viver terreno.
Pétala beijou meus olhos, lavando-os de dentro a distração, e erguendo-se sobre mim, questionou-me que nome eu gostaria de ter, se ela eternizasse em letras o momento, antes de voltarmos para um mundo de luzes artificiais.

 

Written by cykantode

12 de novembro de 2009 at 2:05 AM

Publicado em Crônicas

Pedra Da Boca*

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Passos à cima, Pedra após pedras, e lá chegamos – sem fôlego – à imensa cavidade rochosa. O mundo lá embaixo se assemelha à uma pequena maquete verde e azul, e eu recordo que neste momento, esqueci dos momentos que se passaram.
Deitamos, e contemplamos o teto acizentado acima de nossas cabeças, suspenso como uma gigante onda de concreto a nos engolir. Se fosse vivo – esta não intencional criação da natureza – com qual sabor nos classificaria? Certamente eu me provo com nova doçura, quando fotografo por detrás do olhos meus, o interior de mim ao ver-te sorrir, e reconstruir assim o significado da exarcebada  beleza desta nova formação.

Written by cykantode

3 de novembro de 2009 at 2:42 PM

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Compulsão

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A esposa foi de encontro ao seu marido. Viu-o sobre uma pilha de papeis e canetas, escrevendo compulsivamente acerca de suas pesquisas. Ele procurava à meses pelo sentido da existência, e já não dormia, não comia e nem saia. Carinhosamente, aquela requisitou a atenção de seu esposo:

– Vem cá, querido! Precisamos conversar sobre a sua saúde…

Virou-se esse,  maltrapilho, dizendo em gestos brutos e experimentados, num desencadear furioso de encenação dramática:

– Chega! Cansei-me de tudo isso. Quando vier, não traga palavras… venha com algo mortal, como drogas tetravalentes. Faça-me num estado catatônico:  tire meu ar, mostre assim que me ama. Esvazie este corpse cadavre que a beijou! Use-o pelos futuros breves meses, e por fim, deixe-me morrer, diante aos teus olhos verdes de Teresa, e diga-me adeus! E se existe assim, além deste universo, a paralelidade do sonho de Byron, será apenas consumação continua do estado desvirtuado deste  complexo haver. Sim, um pequeno fragmento de poeira na imensidão cosmica é o que sou… culpado, muito culpado por viver das propriedades das quais as criações dos deuses experimentou…  maldito seja fruto em teus lábios. Eva de Javé ou Pandora dos (deuses) gregos, no refinamento da própria essência humana… espalha em meu mundo as tuas pestes, mulher! Que importa?

Ponderou a mulher, então…

– Não sei se importa, mas o médico te recomendou um válium.

Written by cykantode

30 de outubro de 2009 at 3:41 PM

Publicado em Crônicas