Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

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“Bom dia senhor, como tem passado?”

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Uma coisa que vem me tirando bastante do meu tempo nos últimos tempos são as consultas médicas, às quais tenho ido com uma frequência maior do que gostaria. Chego, certas vezes, a me questionar se existem outras pessoas de vinte anos de idade que esbanjam o dinheiro dos convênios médicos como eu ando esbanjando. Não que essa questão do dinheiro tenha lá tanta importância; pois a questão do dinheiro, no meu caso, é um tanto trivial, já que meu gasto é com convênio e condução; e não há muito do que eles possam reclamar também, já que nunca fui de ter problemas de saúde — até ano passado, obviamente. O tocante é mais o desespero existencial da coisa…

Desde ano passado venho visitando diversos médicos. Às vezes os mesmos médicos, ou médicos diferentes para os mesmos e novos problemas, mas sempre diversos médicos. Até aonde vai minha memória foram dois gastroenterologistas, clínico geral, dermatologista, psiquiatra — e psicóloga, se isso contar, que vou semanalmente e religiosamente às quintas-feiras —, um médico que eu não sei o nome e que trata de problemas no pescoço/cabeça e agora, por último, em um alergista. Claro, isso sem contar as diversas visitas ao pronto-socorro para tratar crises gástricas, alergias à remédios — tomo vários deles…—, suspeita de pneumonia causada pela rinite e uma recém passada virose. Sobre os exames, não vou nem comentar. Cada um pior que o outro e a única coisa até agora que agradeço por não terem pedido é um exame do meu aparelho digestório com qualquer coisa entrando pela contramão. Esse, espero morrer sem. Mas, enfim, acho que já posso dizer que conheço pelo menos um pouquinho do funcionamento das coisas.

Quando a consulta é feita no consultório, é até que tranquilo. Você não costuma ver ninguém morrendo em um consultório; mas quando a consulta se dá dentro do hospital, aí fode. Prontos-Socorros são os piores, obviamente, pelo seu estado e pelo estado dos outros. Mas mesmo quando você vai ao ambulatório a situação é preocupante, já que hospital é hospital. Eu já me acostumei a entrar pela porta do ambulatório do Hospital São Cristóvão, aqui na Mooca, e passar a recepção, aonde umas duas dezenas de pessoas esperam a senha pra conseguir pegar guias pra exames ou retirá-los. Você sobe dois lances de rampas…

[Trocando a música de Slash para Matanza enquanto escrevo]

… Bom, continuando: você sobe dois lances de rampas e vira à direita. Haverá a parte de odontologia, mas não é pra lá que eu vou. Anda mais um pouco pra direita e tem a recepção do ambulatório. Passa o nome e eles avisam qual é a porta aonde o médico da consulta está atendendo. Hoje, no caso, foi na sala 37. Aí é a espera. Sempre tem um pequeno atraso. Nesse meio tempo você pára e repara nas pessoas em volta. Velinhos, gente de meia idade e pouca gente nova. Gente de cadeira de roda, gente tamanho king-size, gente mancando, gente que nem com a cadeira de rodas consegue ir sozinho… enfim, todo um mundo de gente nova com problemas antigos. Agora começa o drama: é um jeito de ver seu futuro, sim? Quando a coisa é seu presente e passado, tudo bem, sai mais fácil; mas quando não era costume e se tornou um, a coisa começa a se complicar. Lembro de uma personagem do Bukowski que destratava os médicos por sempre estar os vendo e nunca nada mudava.

Uma coisa que se repara facilmente nesse caso é o hábito que existe. É engraçado, mas você não repara em uma pessoa que sofre de enxaqueca desde pequeno e que quando tem uma dor cabeça se desespera. Ou então, posso citar um algo que aconteceu há pouco tempo comigo, meu nariz começar a sangrar no meio da noite e eu ficar uns 5 ou 10 minutos pra conseguir fazê-lo parar na maior paz de espírito. O fato é que pessoas se acostumam com suas vidas. Se você tem dor de cabeça desde pequeno; caso tenha uma crise, não vai haver caso por isso. Se você tem enjôos desde muito tempo; você não vai ficar abalado psicologicamente — pelo menos não tanto — por conta disso; assim como pessoas que vão ao hospital desde de muito jovens com frequência já estão acostumadas a isso. O problema é quando você se sente num lugar no qual não pertence. Entrar em um consultório normal: tranquilo. Começar a ir ao pronto-socorro sempre com um problema diferente: psicologicamente desgastante. Saber que você estava bem há tempos atrás e que agora não está mais, idem.

Depois de tantos pensamentos um tanto quanto “mindfuckers”, você é chamado; se levanta; se consulta com um médico, que te dá exames e remédios; sai do consultório; mira o corredor para fugir quase que irracionalmente daquele lugar e torce pra nunca mais ter que entrar em um hospital novamente. Você passa as primeiras pessoas sentadas desconfortavelmente naqueles bancos de espera e então chega à recepção, olha a recepcionista e continua andando pra fora, quase que sentindo um “E aí, como foi a consulta com o Dr. X?” dito com olhos nos olhos e um sorriso de bom-te-ver-de-novo-aqui.

Podem entender isso como uma crítica à um sistema de saúde fraco, ou como um lamento de um jovem-de-vinte-anos/hipocondríaco, ou como uma reflexão de tal jovem; mas a verdade é que isso faz parte; afinal, envelhecemos. Vamos definhar e morrer. Onde antes víamos pessoas velhas e ficávamos observando e julgando seu estado de saúde com um “olha, aquele ali tá fazendo hora extra”, em breve, lá estaremos, sendo nós mesmos avaliados por alguns poucos com um saúde ainda um pouco melhor do que a nossa própria. Ainda sim, é algo que dá trabalho pra assimilar. Cada vez que você sobe aqueles corredores e vê as pessoas seguindo de branco, você se acostuma um pouco mais. É frustrante e talvez tenha um tanto de humor negro no meio de tantos jalecos: vivemos para nos prepararmos para morrermos.

É por isso que agora estou aqui escrevendo e escutando “Rápido garçom me traga o seu melhor whisky/Esse amigo aqui só tem mais meia hora/Até que o diabo descubra que morri/E venha me levar embora!”

Written by Fernanda Rodrigues

25 de maio de 2010 at 5:54 PM