Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

A estreia de um sonhador

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Era domingo e a família de André voltava da casa da matriarca da família. Pai, mãe e filho entraram na estação de metrô, que já sofria o efeito monótono do final do fim de semana. Tudo era nostalgia, entretanto, algo chamou a atenção do pequeno André. Letras garrafais diziam: “NÃO PERCA ESTE ESPETÁCULO! VENHA VER A NOSSA SELEÇÃO DAR UM SHOW!”. O menino correu até o cartaz, ao passo que o desejo inato de ver a seleção canarinha jogando só aumentava.

            O anúncio, pregado na parede daquela estação de metrô, fez o garoto sonhar: via-se em meio à multidão, sendo filmado pela maior emissora de tv. Depois, os craques que saíam do vestiário, subiam as escadas do túnel e surgiam no gramado! Ah, o verde gramado!… André devaneava, quando sentiu uma mão sobre o seu ombro. Olhou para o alto e sorriu:

            – Pai, me leva?! – pediu o menino, não somente com palavras; mas, também, com o olhar.

            – Filho… – o pai olhou rapidamente para a mãe e, em seguida, respirou fundo – acho que o pai não tem dinheiro para comprar esse ingresso. Deve ser muito caro…

            André abaixou a cabeça, enquanto seus pais sentiam-se frustrados. Embora não fossem paupérrimos, também não eram ricos. Pertencer à classe média era a angústia dos pais de André. Eles queriam fazer a vontade do filho; todavia, tinham a consciência do orçamento apertado.

            Os três embarcaram no vagão do metrô em silêncio; cada um, mergulhado em sua tristeza pessoal. Ao chegarem a casa, a mãe foi colocar o filho para dormir. Nada como uma boa noite de sono para mandar a dor embora; contudo, os pais de André não se esqueceriam do episódio tão cedo. No dia seguinte, o pai resolveu mobilizar a família: ligou para os avós, para os tios, para os padrinhos do menino, com a tarefa de fazer uma vaquinha. Como o aniversário de 9 anos do menino estava chegando, nada melhor do que realizar o sonho do guri. Se dependesse dele, seu filho veria a seleção brasileira jogando a final da Copa do Mundo!

            A família conseguiu reunir o dinheiro necessário, o problema maior foi comprar as entradas. Não é todo o dia que a Copa do Mundo é disputada no Brasil. Então, conseguir um lugar no estádio era mais difícil do que correr uma maratona. Mas tudo pela realização do sonho do pequeno André! Horas e horas em uma fila embaixo de um sol escaldante e lá estava o ingresso comprado.

            Alguns meses após o episódio do metrô, o pequeno acordou com sua família toda em seu quarto. Era o grande dia. Estavam presentes pais, avós, tios, padrinhos, amigos da família. Todos queriam ver a carinha feliz da criança ao saber que sim, ele estaria na final do mundial!

            – Filho, acorda…

            – Mas, já, mãe… Me deixa dormir mais um pouquinho…

            – Nós temos um presente para você – disse o pai.

            A palavra “presente” despertou o menino:

            – Que presente?!

            – Esse. – o pai passou o envelope com as entrada para o filho que não acreditou no que tinha nas mãos.

            Passado o momento de surpresa, pai e filho foram se arrumar. A preparação era, não só um momento de felicidade, mas de cumplicidade entre os dois. Aquela era a primeira vez do garoto em um estádio de futebol, então queriam aproveitar ao máximo.

            Durante o caminho, foram conversando. Os olhos brilhando, o entusiasmo aumentando gradativamente. Quanto mais se aproximavam do estádio, mais a multidão crescia. Todos com um só propósito, todos com a mesma expectativa.

            Já na arquibancada, ouvia-se a música vibrando dos tambores dos torcedores. Diferentemente de um clássico onde duas torcidas concorrem para saber quem é a melhor, a participação das pessoas durante a Copa era unicamente torcer pela mesma equipe. Quase não havia torcedores adversários. A vibração era singular; a participação, intensa.

            Os times entraram em campo, os corações batiam forte. O pai de André segurou a mão do menino. Os dois sorriam. Todos sorriam. A felicidade e animação duraram quase toda a partida. Estavam alegres até que o atacante adversário calou a nação brasileira nos 45 do segundo tempo. Os canarinhos levaram um gol.

            André e seu pai não acreditavam no que seus olhos viam. Faltavam apenas dois minutos para o término do jogo. Somente com um milagre nossa seleção empataria… O milagre não veio. Perdemos a Copa.

            Para o menino, restou apenas o fim amargo da sua estreia como torcedor, o silêncio da volta para casa e o vazio da derrota de sua amada seleção.

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Written by Fernanda Rodrigues

2 de abril de 2010 às 9:01 PM

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