Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

Archive for fevereiro 2010

Terapia

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– Como se sente?
– Cansado!
– E a respeito do que conversamos na semana passada?
– Devia mesmo ser pela carga emocional que reprimia… depois que falamos sobre isso, só tomei um copo de cerveja no fim de semana.
– Que continue assim. O meu intuito não é tirar de você o prazer de viver, mas o pesar. O que fez hoje?
– Nada, estou de folga.
– E por que o casanço?
– Não saberia explicar, mas sabendo que o senhor já tem a resposta, esperarei por ela.
– É um prazer, Cláudio: continua reprimindo o que há por dentro; bebia pra não sentir, e se não bebe, sente!
– Foi por costume, você sabe… anos atrás, eu me via nesse dilema emocional: “sofrer ou não sofrer?”, eu me perguntava. Tudo o mais era bom demais para ceder à primeira alternativa, então, escolhi a segunda. Hoje, a razão pela qual me atolei na bebida parece um rabisco negro entre sombras.
– Valeu o esforço?
– Até onde sei, quem está lucrando com isso é você.
– Devíamos trabalhar nessa sua característica sarcástica, também!
– Isso quer dizer que eu feri os seus sentimentos?
– Não se preocupe com  isso, eu também faço terapia.

Written by cykantode

28 de fevereiro de 2010 at 6:00 PM

Publicado em Crônicas

Ritual Diário

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Aquilo se tornara um ritual diário: acordava, ajeitava meu quarto e ia para a cozinha tomar café da manhã. A essa hora, ele aparecia. Pousava na antena do vizinho, de forma que tinha toda a visão do que eu fazia: via-me esquentando o leite no micro-ondas, pegando uma fatia de pão de forma no armário, retirando a xícara do aparelho, passando manteiga na fatia de pão…

Ele observava a tudo discretamente, até que sentia a necessidade de ser visto. Do alto da antena, enchia o peito e cantava:

– Bem-ti-vi! Bem-te-vi!

Eu, então me levantava de minha cadeira e saía no quintal para vê-lo:

– Oi, querido! Você já chegou?!

– Bem-te-vi! Bem-te-vi! – ele respondia animado.

– Como estão as coisas?! – dizia sorrindo – Quer pão?!

– Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Não me lembro ao certo quando aquele Bem-te-vi começou a me visitar, só sei que ele me fazia muito bem. Era ótimo ter contato com a natureza, ainda mais vivendo em uma selva de pedras como São Paulo. Sem contar que o fato das visitas se tornarem diárias, me fez sentir especial de alguma forma. Era tão bom saber que aquele serzinho de peito amarelo vinha me visitar, sem exigir absolutamente nada em troca…

– Bem-te-vi! – ele cantava!

– Bem-te-vi! – eu assobiava.

Então, ele voava.

E eu… Bem, eu ficava a esperar a visita do dia seguinte.

Written by Fernanda Rodrigues

21 de fevereiro de 2010 at 12:09 PM

Publicado em Narrativa