Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

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E-mail a um amigo

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Esta noite não consegui dormir.

Talvez tenha sido a ansiedade em te ver, em saber que iríamos nos reencontrar, após tanto tempo de separação. Você na Europa, estudando e trabalhando. Eu no Brasil, também estudando e trabalhando.

Para você foi duro não ter ninguém para abraçar, chorar e sorrir durante pelo menos seis meses, o tempo necessário para confiar em alguém. Para mim, foi duro olhar para a cadeira ao lado, na classe, e não te ver com um sorriso brilhante no rosto, rindo das matérias difíceis e dos alunos idiotas ao fundo.

Para mim, foi duro não ter alguém para lanchar nos intervalos e jogar papo fora. Foi duro não ter meu poço de cultura inútil, sempre dividindo impressões sobre livros, filmes e seriados.

Para você, foi duro ouvir mina voz somente por um fio de telefone. Foi duro não poder ver o brilho de meus olhos felizes por suas conquistas. Foi duro somente trocar e-mails diariamente.

Para nós, foi duro não poder sentir o cheiro e o calor um do outro.

Mas hoje, finalmente, iremos nos reencontrar. Não sei descrever a fome que minha alma tem da sua. Não sei como será te ver, te abraçar e chorar em seus ombros. Sim, irei chorar. Tudo parará e esqueceremos do mundo.

Antes de ir até onde combinamos, precisava te mandar este email, tentando expressar o que estou sentindo agora, se é que isso é possível.

Amigo, espero-te como uma boca sedenta por água. Espero-te como  um pulmão impedido de respirar. Amigo, simplesmente espero pelo seu sorriso.

Written by isaquecriscuolo

31 de dezembro de 2009 at 12:40 PM

Publicado em Crônicas, Poética

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Tensão do Vestibular

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É engraçado analisar as pessoas quando vou fazer uma prova de vestibular. Sempre escolho um vestido folgado e uma rasteira, pego uma garrafa de água, meu documento de identidade e duas canetas pretas. Apesar de tudo e de realmente sentir-me preparada para passar apenas quatro horas em uma sala, grande parte das pessoas que vejo quando chego ao local da realização da prova estão quase prontas para uma maratona de quarenta dias e quarenta noites no deserto. São sacolas cheias de comida, duas garrafas de água, tênis para esportes, casacos para caso faça frio nesse bendito sol de trinta graus de Brasília e coisas absurdas que só vendo para acreditar.

Tudo bem, a partir desse momento já estou sentindo-me completamente despreparada perto da maioria. Até o vestibulando com cara de mais perdido nesse momento me parece o mais inteligente e estudioso, começo a ficar paranóica e a partir de então mesmo aquele pentelho do fundo da sala que estuda comigo, que eu tenho certeza de que não aprendeu porcaria nenhuma, parece saber muito mais. Começa a dar uma angústia, eu já entro em sala com o suor na testa antes de olhar para as outras pessoas. Do meu lado esquerdo um super nerd que provavelmente estuda química por diversão, óculos fundo de garrafa e suéter em pleno verão. Eu sei que é exatamente esse cara que devo temer e nesse instante o pobre coitado já até notou que estou encarando-o com uma expressão assassina e desafiadora. Do outro lado uma garota muito loira, cheia de pulseiras coloridas, mini saia, maquiagem rosa e até o esmalte que ela usava estava me cegando. Fico mais tranqüila, ao menos mais que a patricinha eu deveria saber… Espero!

Então entregam a prova. A primeira coisa é o instrutor colocar medo em todo mundo na sala que nunca fez um vestibular, tudo parece com as instruções de segurança de um avião e me faz apenas ficar mais nervosa do que já estava. Olho para o cartão de resposta que até então parecia simples e tudo começa a soar complexo como um problema matemático e acho que a garota loira do meu lado pensa do mesmo jeito. Está tudo bem, tranqüilizo-me respirando fundo. Começa a prova, respondo toda a parte de língua estrangeira, estou indo bem perto da loira que faz uma expressão de perdida, mas o nerd do lado esquerdo está fazendo um problema gigante de matemática nesse momento. Alguns dos preparados para a excursão no deserto começam a desempacotar chocolates lentamente no fundo da sala, outros misteriosamente pegam um resfriado e seus narizes escorrem. O barulho me irrita, mas passo bem pelas questões de história, geografia, português, artes e filosofia. Na segunda parte pulo tudo que tem números no meio e respondo algumas de biologia. Minha redação fica boa, apesar deu ter a certeza de que sob pressão não ficou tão boa quanto poderia.

Acaba, entrego, saio com o a prova e com um sorriso no rosto. Tenho certeza de que fui bem, até ver o maldito nerd que ficou na minha sala comentar com o amigo igualmente nerd que só não respondeu duas questões. Bem, não adianta se desesperar, agora é o momento de esperar o resultado para saber se passou ou não na prova. Mas apesar de tudo acho que a loirinha que saiu com uma cara de interrogação vai precisar esperar pelo próximo vestibular.

Written by Raila Spindola

14 de dezembro de 2009 at 10:41 AM