Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

Archive for novembro 2009

água

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A música de fundo daquela festa mencionava amores além-vida… Bárbara repousava as mãos no colo, sobre o vestido branco, e descordava, ou ao menos desejava que depois de sua morte, não fosse julgada pelos seus convidados por nenhuma volúpia sentimental, cujo controle, não possuia.
– Essa festa está tão horrivelmente chata… – Mencionou à melhor amiga.
– É a sua festa de despedida … se divirta – beijou a sua face e tornou à conversar com outros.
Ao ser levada tão longíquamente em seus pensamentos daquele lugar, vislumbrou um rosto familiar na varanda da recepção onde estava. O mesmo a chamava, com uma garrafa na altura do ombro, por detrás do vidro, e sorria sedutoramente.
Abriu a porta, e a sua encharpe e saia voaram alto, e foram contidas pelo rapaz, que pegou-le a mão, e a levou para a beira de um rio que corria 300 metros dali.
– Você está me perseguindo, não é? – Disse ela…
– De forma alguma… eu trabalho muito para perder meu tempo de descanso atrás de lindas mocinhas…
– Ao que me parece, sim… veio de terno, ainda que o esteja vestindo desleixadamente, mas obrigada pelo elogio.
– Tire os sapatos, agora – Disse ele, dando um longo gole na bebida… – E não faça essa cara… quero dar um mergulho no rio com você…
– Tudo bem – empolgada e segurando as mãos – mas eu vou de roupa, já que está muito frio…
– Você quem sabe…

Chegando lá, ela estava embreaga… a presença daquele a quem ela havia visto inúmeras vezes na rua soava como uma refrescante novidade, e com ele, havia fantasiado por meses…
– Então, você é mesmo um espertinho… trabalha na gráfica de convites…
– Você adivinhou… – e beijou-a.
Com isso, ela permitiu que a garrafa caisse no chão, e atingisse seus pés… o sangue escorria pela areia, e foi tomada em seu colo, para limpar o ferimento na água…
– Essa noite não deveria terminar em sangue, com uma lua tão linda no céu… – Disse ele…
– Não me importo… nem senti que estava machucada e pelo visto, vai chover.

Ainda tonta pela bebida, foi solta na beira do rio, com água batendo em seu joelho, e o rapaz à deixou ali para tirar o paletó, sapatos e gravata em local seco… ela fez um gesto de liberdade, deixando-se cair na água, de braços abertos e rosto para o céu, e então, tendo batido a cabeça numa pedra, sangrou até a morte, lindamente, como uma água-viva banhada pela garôa crescente.
O rapaz retornou, e logo se deparando com a situação, sentiu estranha revolta.
Recolheu tudo o que tinha e caminhou despreopado, para que a chuva lavasse os rastros de uma morte que o mesmo tinha em mente cometer.

Written by cykantode

28 de novembro de 2009 at 6:04 PM

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Gramática

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Uma coisa que acho engraçada a respeito da língua portuguesa é a forma como as escolas, depois de tantos anos, ainda conseguem ensinar tudo da forma mais difícil possível. Fico revoltada com o fato de ser muito mais importante decorar todas as malditas regrinhas da gramática de que aprender a construir uma frase corretamente. Certo, talvez eu esteja sendo completamente implicando simplesmente por nunca ter conseguido aprender isso direito e, por favor, não me peçam para fazer uma análise gramatical de frase alguma, provavelmente não vai sair muita coisa além do básico.

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Não é me gabando, mas conheço pessoas que sabem todas as regras da gramática e não escrevem um texto coerente, que perdem e muito pras minhas frases e meus textos. O motivo disso é a leitura, não adianta você ter feito curso de coisa alguma se não exercitar, isso só leva a esquecer. As palavras foram feitas para a comunicação, acho completamente dispensável saber classificar palavras se consegue fazer com que as outras pessoas compreendam completamente. As coisas não precisam necessariamente ser de total aceitação gramatical desde que sua mensagem esteja sendo passada.

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Se eu sei escrever textos formais ou complexos? Sim, eu sei, apesar de que poderiam demorar um pouco mais, só não vejo essa necessidade, não em algo com o objetivo de divertir e distrair como crônicas. Espero apenas que quem for acompanhar possa se deliciar um pouco e talvez até rir com o pouco que tenho a dizer, verídico ou não. Sejamos simples, diretos e acima de tudo práticos de agora em diante.

Written by Raila Spindola

27 de novembro de 2009 at 8:45 PM

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Crônica da Despedida

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Era uma quinta-feira e eu estava como de costume fazendo as mesmas coisas que fazia diariamente, ela estava sentada na sala com uma das pernas apoiada no sofá.

– Dói? – Perguntei me aproximando dela.

– Agora não mais. – Ela me respondeu com aparente calma.

Voltei aos meus afazeres, sem muito entusiasmo, queria mesmo era deitar e adormecer, a madrugada já tinha sido tensa.

– Vamos? – Ouvi alguém falar na sala com ela. Ela, então, levantou-se devagar e me olhou.

– Vá! – Eu disse – E me ligue assim que terminar.

Ela concordou e se foi.

Terminei o que tinha de fazer e fui para cama, meu corpo estava pesado, e eu não via a hora de dormir um pouco. Deitei e fechei os olhos, o sono não demorou a chegar.

– Ué! Já chegou? – Eu disse abrindo os olhos. Ela estava parada na porta do quarto, vestia branco e carregava um estranho olhar sereno.

– Na verdade… Estou indo agora. – Ela sorriu.

– Para onde? – Perguntei aproximando-me dela.

– Para longe! – Exclamou e, ainda sorrindo, me envolveu em um terno abraço. – Jamais esqueça o quanto te amo.

– Jamais esquecerei. – As lágrimas rolaram livremente pelo meu rosto.

E então o telefone tocou, acordei com o susto do barulho do aparelho e titubeando fui atender.

– Alô?!

– Ela se foi… – Uma voz chorosa falou comigo.

– Eu sei… – disse calma – Ela veio se despedir de mim. – Desliguei o telefone, sentei no sofá e deixei que as lágrimas corressem por minha face.

Written by carolinesantos

24 de novembro de 2009 at 3:36 PM

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Malas Prontas

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Desci no ponto de ônibus às 16h, na praia de Baía Formosa. Avistei ao longe, como todo bom viajante, o azul do mar e suas jangadinhas coloridas na água. Coloquei-me à abrigar debaixo de uma sombra, e esperei em vão ser buscada pelo alguém, então tirei um papelzinho com o endereço de interesse do bolso, e fui andando pelo calçamento com dificuldade e muito calor… “Vestido preto e plataforma não foram boas escolhas”. Cruzando ruas de casinhas coloridas, vi-o no meio de uma pracinha – o sempre atrasado –  vindo de encontro a mim, e logo pegando minha mala e segurando minha mão, disse que estava feliz com minha presença, e me levou até o seu condomínio. O pequeno prédio parecia ser o mais moderno do vilarejo, e porta a dentro, um quase que extenso cômodo com uma cama de casal e a cozinha, uma porta para o banheiro e janelas com a linda vista.

Estavamos deitados da cama, conversando sobre assuntos sem importância, quando revelou-se à razão de ter se mudado mais do que da cidade grande, de mim… até aquele momento, nem havia tirado as sandálias, mas num pulo, decidi-me pegar o maiô na mala e dar um mergulho no mar.  Eu não queria pensar em nada que ficou no passado, e esperava não ter trazido aquele ou outros lugares dentro de mim… Aproveitamos bem o fim de tarde e o começo de noite. Ele parecia diferente e leve como uma pluma: uma outra pessoa… aquele com quem eu desejára viver.

O céu se fez num tom rosa e azul marinho, e antes da escuridão total, me retirei da água e sentei numa pedra. Estava invadida pela paz da paisagem e dos sons dos pássaros na mata da Estrela, atrás de nós, e pude perceber a minha própria mudança interna como produto da vista que me encarava.

De volta para o apartamento, cozinhei macarrão à bolonhesa e captei a vida noturna da cidade pela janela. Ele  abraçou-me por trás e perguntou-me se iria viver ali e eu respondi que “sim” com um sorriso no rosto, e uma passagem vitalícia de volta para a vida que eu conhecia na bagagem.

Written by cykantode

24 de novembro de 2009 at 11:10 AM

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Pé Direito

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Acordei cedo demais, como sempre, sonolenta e cambaleante. Bati a canela da perna na ponta da cama. Porra! Talvez porque esqueci de levantar com o pé direito. Dizem que dá sorte, mas fico me perguntando se acredito nessas coisas ou só aceito porque todo mundo faz. Bom, àquela hora da manhã isso não importava.

Deveria ter ficado na cama, assim dormiria gostoso, mas perderia a aula na faculdade. Justo hoje que tinha aquela aula chata de Política. Não podia faltar, estou quase pegando DP nesta matéria.  Acorda, Jeni! Vamos lá.

Tomei meu café amargo, molhei-me no chuveiro e vesti uma roupa que peguei sem olhar. Livros e mochila permaneciam intocados, no canto do quarto. Nunca fui a melhor aluna da classe e sempre passei na média. Tudo bem para mim. Para que ser inteligente, tirar as maiores notas e depois se ferrar? Gente inteligente só serve para ajudar pessoas burras como eu. Sobre isso, uma amiga disse que sou preconceituosa. Eu? Magina. Só encaro os fatos.

E além do mais, nem preciso ser inteligente, meus pais são ricos  e nem percebem que não sou a filhinha estudiosa e aplicada.

Quando penso nisso, lembro daquele menino da classe, magro, de óculos, cabelo penteado de lado. Ele estuda o tempo inteiro e ninguém o valoriza. Ninguém olha para ele. Não fui feita para não ser vista. Quero brilhar, mesmo quase morta como estava pela manhã.

Além do sono e do desânimo, ainda peguei ônibus lotado. Normal até certo ponto, já que cheguei atrasada e o professor gato/coroa de Política já havia começado a aula.

Como ele quer que aprendamos, lindo daquele jeito? É apreciar sua gostosura ou ouvir sobre sistemas políticos, estratégias políticas e o diabo a quatro político. Não dá! A solução era desistir mais uma vez da aula. Pensando bem, uma DP com aquele professor não uma má ideia, já que poderia admirá-lo por mais um semestre.

Sai da sala. Encontrei o lindo do quinto semestre e lembrei que tinha esperanças daquele ser um dia diferente, mesmo tendo começado com o pé esquerdo e ônibus lotado. O lindo poderia me olhar, não? Ah, estou cansada dessa vida de sonhos e ilusões. Chega!

Fui para casa. Passei a tarde pensando no que poderia mudar para consolar aquela insatisfação. A Pamela me ligou, aquela menina que se declara minha melhor amiga, dizendo que preciso crescer, amadurecer. Ah, o que importa? Sou loira, gostosa, bonita e  burra. Os coroas ricos não querem inteligência e eu quero o dinheiro deles. Pronto, tudo resolvido.

Vou dormir sentindo-me mais fútil do que ontem. Quem sabe é esse mesmo o meu destino: ser fútil.

Decidi criar um blog para desabafar e ter uma opinião de quem não me conhece, mas não deu certo. Desisti antes da primeira postagem. Dei-me conta que este foi mais um dia comum que achei que seria diferente. Talvez nunca mude mesmo, só preciso me acostumar, nada de reclamação. Gosto de ser assim, e daí?

Espero que amanhã eu acorde com o pé direito. Pode ser que tudo dê certo…

Written by isaquecriscuolo

21 de novembro de 2009 at 12:20 PM

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Só Mais Um Fim

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Como se essas lágrimas, derramadas por amores perdidos, não fossem suficientemente salgadas, dos piores pesadelos eu ainda tenho que aguentar meu homem me deixando aqui sozinha comigo mesma, só com essa xícara de café frio e esse cigarro queimado pela metade! Tudo se desenvolve de maneira súbita e vêm abaixo lentamente, como em câmera lenta. Podemos ver cada tijolo se desprendendo da parede e se jogando para a imensidão que se estende abaixo. Os lustres da casa balançando e as janelas trincando vêm a seguir. Depois os espelhos despedaçando. Enfim, tudo desmorona. Toda aquela edificação sublime vem a baixo peça por peça, como se quisesse nos dar tempo para prever o que finalmente acontecerá e que não pode mais ser detido: os escombros.
E tudo isso agora se faz em e através de mim mesma. Dos meus sapatos de salto-alto os saltos se foram e me deixaram nivelada ao solo, junto com as lágrimas que caíram do meu rosto e que agora jazem como restos de uma dor que já se foi, mas que ainda ficará por tempo indeterminado.
E agora, como me reerguerei? Com que força e com que estabilidade conseguirei colocar meu quarto, a única parte da casa que ainda pertencia somente à mim, em ordem novamente; para que possa, talvez, vir a erguer novamente um palácio com outro rei? A fragilidade me domina por completo: sou incapaz de viver assim, sozinha. Ou sou mais capaz do que penso?
É tão difícil pensar que uma mulher pode ser ela por inteiro, sem que precise de um contraposto — o homem — para definí-la realmente como é? Sim, talvez, por que não seria? Não sou e nunca fui submetida a ele para que esse pensamento fosse certo. Sempre fomos um nós: alicerces da mesma casa construída com o mesmo suor, na qual as torneiras e os chuveiros deixam fluir o mesmo sangue. Mas agora isso parece tão obscuro, pois não há alicerce algum… não há mais casa alguma. Só um pequeno quarto onde me sinto a salvo desse terremoto que o levou da minha vida. Aqui, no meu quarto, no meu espaço, na minha mente, que agora deixa de responder à quaisquer estímulos exteriores…
Estou presa aqui. Sei que meus olhos abrem-se e fecham-se automaticamente. E que minha boca responde às perguntas que me fazem. Que meus dedos levando o cigarro, novo, e o café, ainda frio, à minha boca; mas não sou eu.
Sempre me disseram que meus olhos são as janelas da minha alma, mas agora essas janelas dão para fora, para o nada. Como se a janela tivesse sido movida, como se a imagem que transparecia tivesse sido movida: era um campo florido e alegre, pacífico e satisfeito consigo mesmo; agora é um mar gélido onde parece não existir calor, onde o cinza do céu se mistura com a tristeza branca da neve. Agora meus olhos refletem o caos que se instaurou aqui dentro de mim. E é como se eu estivesse sendo jogada por esse caos sem poder me mexer, sem poder me fazer presente. Como faço pra sair daqui? Vejo elas, minhas amigas, acenando e falando, mas minha boca não responde as palavras que eu gostaria que dissesse. Como pode isso? Como estou presa dentro de mim mesma? Desse quarto iluminado pelo reflexo branco do gelo?
Como saio…?
Como volto…?
Como erguer toda a estrutura que ainda existia e agora se foi…?
O que é isso tocando minha mão? Lágrimas? São minhas lágrimas que estão fugindo dos meus olhos de novo? Não quero tal coisa mas não consigo impedir… que seja então! Que levem todos os escombros dessa casa que já desabou.
Não há volta, há a necessidade de lavar tudo e preparar o terreno para que algo novo seja construiído…
— Não se preocupem: ficarei bem.

Written by Fernanda Rodrigues

17 de novembro de 2009 at 9:07 PM

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Quem está certo?

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Sentado aqui nesse quarto quase escuro, fica difícil não pensar sobre coisas que deveriam ficar trancadas, que nem o porquê daquele tapa, ou porquê uma briga tão desnecessária. Mas essa exclusão me faz uma pessoa melhor. Talvez porque todos nós devamos refletir sobre o que fazemos e as consequências que noss atos tem; ou talvez porque aqui eu não tenho espaço para discutir com minha esposa.

Eu a amo — é claro que a amo. Fazem 12 anos que estamos casados e nunca deixei de mostrar todos os dias isso a ela. Mas foi um deslize. Esquecer o décimo segundo aniversário de casamento não é tão ruim assim, é? E mesmo assim entramos em uma discussão sem fim, que voltou até nosso primeiro dia dos namorados, em que eu não havia comprado nada por estarmos juntos somente a duas semana. O que tem de mais em esquecer uma data, se o que se constrói por toda uma vida não tem dia marcado? Trago flores sempre; chocolates; bichinhos de pelúcia; e, por sair estressado do trabalho, depois de 2 horas para conseguir chegar em casa, sou recebido com um vaso chinês voador? Vaso que eu dei no nosso último aniversário ainda por cima. É por isso que eu não devo mais comprar presentes: são armas em potencial!

Por que ela faz isso comigo? Pensa que eu sou um super-homem que é capaz de tudo? “Vai fazer isso”, “vai fazer aquilo”, “você me prometeu”. Poxa! eu não consigo ser um super-herói o tempo todo. Imprevistos acontecem. Não é porque eu falei que iriámos passar o domingo na casa da mãe dela nesse final de semana, que isso era uma coisa decidida, certa e escrita nas estrelas; afinal, como eu iria saber que o Pompa estava vindo pra cá passar o final de semana com sua esposa. Ela tem que entender que não via ele desde o começo do ano passado. Eu cresci com o cara, poxa. Ela tem que entender. Não pode ficar dando chilique sempre sempre que eu falo que vou tomar umas cervejas lá na padaria do Mané, ou quando eu digo que vou jogar uma pelada de final de semana. Mas não… toda vez ela reclama. Isso quando não pegam ela e aquela perua ridícula da amiga dela no meu pé.

Como detesto aquela Thais! Sempre colocando abobrinhas na cabeça dela. Fica querendo levar minha mulher pra bater perna no shopping, faz com que ela fique o sábado inteiro no salão de beleza, quando na verdade deveria estar comigo. Aquela mulher não presta. Deve ser por conta  dela que a Vivi deu agora pra jogar coisas em mim! Ao invés de fazer o que precisa fazer fica fofocando com aquela tiazona de trinta e seis anos. Não me conformo com isso.

Written by Fernanda Rodrigues

15 de novembro de 2009 at 1:48 PM

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