Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

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“Bom dia senhor, como tem passado?”

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Uma coisa que vem me tirando bastante do meu tempo nos últimos tempos são as consultas médicas, às quais tenho ido com uma frequência maior do que gostaria. Chego, certas vezes, a me questionar se existem outras pessoas de vinte anos de idade que esbanjam o dinheiro dos convênios médicos como eu ando esbanjando. Não que essa questão do dinheiro tenha lá tanta importância; pois a questão do dinheiro, no meu caso, é um tanto trivial, já que meu gasto é com convênio e condução; e não há muito do que eles possam reclamar também, já que nunca fui de ter problemas de saúde — até ano passado, obviamente. O tocante é mais o desespero existencial da coisa…

Desde ano passado venho visitando diversos médicos. Às vezes os mesmos médicos, ou médicos diferentes para os mesmos e novos problemas, mas sempre diversos médicos. Até aonde vai minha memória foram dois gastroenterologistas, clínico geral, dermatologista, psiquiatra — e psicóloga, se isso contar, que vou semanalmente e religiosamente às quintas-feiras —, um médico que eu não sei o nome e que trata de problemas no pescoço/cabeça e agora, por último, em um alergista. Claro, isso sem contar as diversas visitas ao pronto-socorro para tratar crises gástricas, alergias à remédios — tomo vários deles…—, suspeita de pneumonia causada pela rinite e uma recém passada virose. Sobre os exames, não vou nem comentar. Cada um pior que o outro e a única coisa até agora que agradeço por não terem pedido é um exame do meu aparelho digestório com qualquer coisa entrando pela contramão. Esse, espero morrer sem. Mas, enfim, acho que já posso dizer que conheço pelo menos um pouquinho do funcionamento das coisas.

Quando a consulta é feita no consultório, é até que tranquilo. Você não costuma ver ninguém morrendo em um consultório; mas quando a consulta se dá dentro do hospital, aí fode. Prontos-Socorros são os piores, obviamente, pelo seu estado e pelo estado dos outros. Mas mesmo quando você vai ao ambulatório a situação é preocupante, já que hospital é hospital. Eu já me acostumei a entrar pela porta do ambulatório do Hospital São Cristóvão, aqui na Mooca, e passar a recepção, aonde umas duas dezenas de pessoas esperam a senha pra conseguir pegar guias pra exames ou retirá-los. Você sobe dois lances de rampas…

[Trocando a música de Slash para Matanza enquanto escrevo]

… Bom, continuando: você sobe dois lances de rampas e vira à direita. Haverá a parte de odontologia, mas não é pra lá que eu vou. Anda mais um pouco pra direita e tem a recepção do ambulatório. Passa o nome e eles avisam qual é a porta aonde o médico da consulta está atendendo. Hoje, no caso, foi na sala 37. Aí é a espera. Sempre tem um pequeno atraso. Nesse meio tempo você pára e repara nas pessoas em volta. Velinhos, gente de meia idade e pouca gente nova. Gente de cadeira de roda, gente tamanho king-size, gente mancando, gente que nem com a cadeira de rodas consegue ir sozinho… enfim, todo um mundo de gente nova com problemas antigos. Agora começa o drama: é um jeito de ver seu futuro, sim? Quando a coisa é seu presente e passado, tudo bem, sai mais fácil; mas quando não era costume e se tornou um, a coisa começa a se complicar. Lembro de uma personagem do Bukowski que destratava os médicos por sempre estar os vendo e nunca nada mudava.

Uma coisa que se repara facilmente nesse caso é o hábito que existe. É engraçado, mas você não repara em uma pessoa que sofre de enxaqueca desde pequeno e que quando tem uma dor cabeça se desespera. Ou então, posso citar um algo que aconteceu há pouco tempo comigo, meu nariz começar a sangrar no meio da noite e eu ficar uns 5 ou 10 minutos pra conseguir fazê-lo parar na maior paz de espírito. O fato é que pessoas se acostumam com suas vidas. Se você tem dor de cabeça desde pequeno; caso tenha uma crise, não vai haver caso por isso. Se você tem enjôos desde muito tempo; você não vai ficar abalado psicologicamente — pelo menos não tanto — por conta disso; assim como pessoas que vão ao hospital desde de muito jovens com frequência já estão acostumadas a isso. O problema é quando você se sente num lugar no qual não pertence. Entrar em um consultório normal: tranquilo. Começar a ir ao pronto-socorro sempre com um problema diferente: psicologicamente desgastante. Saber que você estava bem há tempos atrás e que agora não está mais, idem.

Depois de tantos pensamentos um tanto quanto “mindfuckers”, você é chamado; se levanta; se consulta com um médico, que te dá exames e remédios; sai do consultório; mira o corredor para fugir quase que irracionalmente daquele lugar e torce pra nunca mais ter que entrar em um hospital novamente. Você passa as primeiras pessoas sentadas desconfortavelmente naqueles bancos de espera e então chega à recepção, olha a recepcionista e continua andando pra fora, quase que sentindo um “E aí, como foi a consulta com o Dr. X?” dito com olhos nos olhos e um sorriso de bom-te-ver-de-novo-aqui.

Podem entender isso como uma crítica à um sistema de saúde fraco, ou como um lamento de um jovem-de-vinte-anos/hipocondríaco, ou como uma reflexão de tal jovem; mas a verdade é que isso faz parte; afinal, envelhecemos. Vamos definhar e morrer. Onde antes víamos pessoas velhas e ficávamos observando e julgando seu estado de saúde com um “olha, aquele ali tá fazendo hora extra”, em breve, lá estaremos, sendo nós mesmos avaliados por alguns poucos com um saúde ainda um pouco melhor do que a nossa própria. Ainda sim, é algo que dá trabalho pra assimilar. Cada vez que você sobe aqueles corredores e vê as pessoas seguindo de branco, você se acostuma um pouco mais. É frustrante e talvez tenha um tanto de humor negro no meio de tantos jalecos: vivemos para nos prepararmos para morrermos.

É por isso que agora estou aqui escrevendo e escutando “Rápido garçom me traga o seu melhor whisky/Esse amigo aqui só tem mais meia hora/Até que o diabo descubra que morri/E venha me levar embora!”

Escrito por Renato T

25 de maio de 2010 em 5:54 PM

Hoje

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Hoje o dia está agradável. E não é aquele agradável de frio com sol, um clima agradável que nos arrasta para lembranças bem-feitas e uma nostalgia maravilhosa. É um agradável diferente, daqueles que acontecem quando no dia anterior ficamos com dor no rosto e na barriga de tanto dar risada. Daqueles dias agradáveis trazidos por noites leves. Daqueles em que o dia parece agradável por nós mesmos e não por si só. Um dia que vem de dentro pra fora e não de fora pra dentro.
Agora, estou aqui no trabalho e, ainda com coisas para fazer, me reencontro perdido em diversos pensamentos e lembranças de coisas que se passaram há pouco e vejo que muito do que foi feito/dito/pensado não tem sentido. Ou melhor, muitas dessas coisas tem sentido; mas o sentido delas não é o que deveriam ter, que a fundamentação delas está errada.
A gente vive em um turbilhão, arrastados por um caos que vai sempre se extendendo e ficando mais forte. Um cíclo vicioso. E não existe momento de quebra ou interrompimento desse turbilhão. O único jeito de escapar é saindo sozinho. E quando escapamos por um segundo, somos obrigados a pular novamente nesse círculo dantesco. Não conseguimos ver as coisas que passam, não conseguimos pensar no que vemos: não há nada a se fazer, só deixar que o acaso nos conduza ao seu bel prazer.
Mas nem tudo é acaso. Existem forças também. Forças de resistência — as nossas forças de resistência. O balanço vem desse confronto das nossas forças com forças externas.
Conseguimos pular novamente para fora da vida e dessa vez temos tempo de olhar e pensar tudo que se passa. Temos tempo de esquecer do trabalho, do TCC, das aulas e cursos, e de todo o resto. Aí nos sobra todo o tempo do mundo pra olhar bem no fundo de tudo e abrir um sorriso — de orelha à orelha, ou um sorriso tímido — e, quando isso acontece, o dia fica agradável.

Escrito por Renato T

27 de abril de 2010 em 12:34 PM

Publicado em Crônicas, Narrativa

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Vida é…

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Era de manhã. Lá pelas sete e meia da manhã. E tava todo mundo no ônibus, indo pra cidade. Típico dia de semana, em que todo o mundo, ao mesmo tempo, resolve pegar o mesmo ônibus. Por sorte consegui um lugarzinho sentado. Não era janelinha e nem a paisagem era boa, muito menos me servirão comida; mas qualquer toco de árvore, se possível encontrar ali, seria melhor do que ter que ficar, além de tudo, em pé.
O tempo passou. E passou. E passou…
Dez, quize, vinte, trinta, quarenta minutos dentro do ônibus e enfim!, Parque Dom Pedro. Agora era só mais um ônibus pra se chegar no trabalho!
Bom… fila. E depois mais fila. Subir no ônibus. Passar a catraca. Sentar não muito longe da porta da saida, porquê se não depois pra ir da frente do ônibus até o fundo é mais tempo do que pra ir de casa para o trabalho. Enfim… ritual de praxe
Finalmente, o motorista resolve sair.
A cobradora agora abre o jornal agora e começa a fazer as palavras cruzadas e ler as tirinhas.
O figuraça atrás resolve que já é hora de colocar o celular pra tocar aquela música que só ele gosta. Se vale daquele princípio de tornar as desgraças ainda mais desgraçadas para ver se alivia a dele.
Começa o trânsito. Tudo parado em todo lugar. Os ônibus que cruzam essa avenida param na frente dos que seguem. Aí param os de trás (nas duas ruas).
E assim fica.
Dez, quinze, vinte, trinta minutos até que de pouquinho em pouquinho eu consigo descer no meu ponto.
“Tô atrasado…” é o que eu sempre penso quando isso acontece. “Vô tomá outra carcada”
Aí eu dou uma acelerada no passo. Passo no meio dos carros fazem fila lá pra trás da rua pra atravessar a calçada.
Ando mais um pouquinho.
Pego o elevador.
Finalmente! estou no trabalho. Dez minutinhos atrasado, mas é desculpável, eu cheguei!
Vejo meu chefe passando lá no fundo e vejo que muda o caminho pra vir aqui falar comigo.
“Eduardo!, aonde é que você tava? Tá todo mundo aqui querendo tomar café pra começar o dia e você sumiu. Faz o seguinte. Faz logo o café e passa na minha sala pra pegar dinheiro pra sair: Preciso que você vá comprar dois maços de cigarro. Um Marlboro vermelho pra mim e um Carlton branco pro Élcio.”

Escrito por Renato T

9 de março de 2010 em 10:55 AM

Publicado em Humorística, Narrativa

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Só Mais Um Fim

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Como se essas lágrimas, derramadas por amores perdidos, não fossem suficientemente salgadas, dos piores pesadelos eu ainda tenho que aguentar meu homem me deixando aqui sozinha comigo mesma, só com essa xícara de café frio e esse cigarro queimado pela metade! Tudo se desenvolve de maneira súbita e vêm abaixo lentamente, como em câmera lenta. Podemos ver cada tijolo se desprendendo da parede e se jogando para a imensidão que se estende abaixo. Os lustres da casa balançando e as janelas trincando vêm a seguir. Depois os espelhos despedaçando. Enfim, tudo desmorona. Toda aquela edificação sublime vem a baixo peça por peça, como se quisesse nos dar tempo para prever o que finalmente acontecerá e que não pode mais ser detido: os escombros.
E tudo isso agora se faz em e através de mim mesma. Dos meus sapatos de salto-alto os saltos se foram e me deixaram nivelada ao solo, junto com as lágrimas que caíram do meu rosto e que agora jazem como restos de uma dor que já se foi, mas que ainda ficará por tempo indeterminado.
E agora, como me reerguerei? Com que força e com que estabilidade conseguirei colocar meu quarto, a única parte da casa que ainda pertencia somente à mim, em ordem novamente; para que possa, talvez, vir a erguer novamente um palácio com outro rei? A fragilidade me domina por completo: sou incapaz de viver assim, sozinha. Ou sou mais capaz do que penso?
É tão difícil pensar que uma mulher pode ser ela por inteiro, sem que precise de um contraposto — o homem — para definí-la realmente como é? Sim, talvez, por que não seria? Não sou e nunca fui submetida a ele para que esse pensamento fosse certo. Sempre fomos um nós: alicerces da mesma casa construída com o mesmo suor, na qual as torneiras e os chuveiros deixam fluir o mesmo sangue. Mas agora isso parece tão obscuro, pois não há alicerce algum… não há mais casa alguma. Só um pequeno quarto onde me sinto a salvo desse terremoto que o levou da minha vida. Aqui, no meu quarto, no meu espaço, na minha mente, que agora deixa de responder à quaisquer estímulos exteriores…
Estou presa aqui. Sei que meus olhos abrem-se e fecham-se automaticamente. E que minha boca responde às perguntas que me fazem. Que meus dedos levando o cigarro, novo, e o café, ainda frio, à minha boca; mas não sou eu.
Sempre me disseram que meus olhos são as janelas da minha alma, mas agora essas janelas dão para fora, para o nada. Como se a janela tivesse sido movida, como se a imagem que transparecia tivesse sido movida: era um campo florido e alegre, pacífico e satisfeito consigo mesmo; agora é um mar gélido onde parece não existir calor, onde o cinza do céu se mistura com a tristeza branca da neve. Agora meus olhos refletem o caos que se instaurou aqui dentro de mim. E é como se eu estivesse sendo jogada por esse caos sem poder me mexer, sem poder me fazer presente. Como faço pra sair daqui? Vejo elas, minhas amigas, acenando e falando, mas minha boca não responde as palavras que eu gostaria que dissesse. Como pode isso? Como estou presa dentro de mim mesma? Desse quarto iluminado pelo reflexo branco do gelo?
Como saio…?
Como volto…?
Como erguer toda a estrutura que ainda existia e agora se foi…?
O que é isso tocando minha mão? Lágrimas? São minhas lágrimas que estão fugindo dos meus olhos de novo? Não quero tal coisa mas não consigo impedir… que seja então! Que levem todos os escombros dessa casa que já desabou.
Não há volta, há a necessidade de lavar tudo e preparar o terreno para que algo novo seja construiído…
— Não se preocupem: ficarei bem.

Escrito por Renato T

17 de novembro de 2009 em 9:07 PM

Publicado em Crônicas

Quem está certo?

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Sentado aqui nesse quarto quase escuro, fica difícil não pensar sobre coisas que deveriam ficar trancadas, que nem o porquê daquele tapa, ou porquê uma briga tão desnecessária. Mas essa exclusão me faz uma pessoa melhor. Talvez porque todos nós devamos refletir sobre o que fazemos e as consequências que noss atos tem; ou talvez porque aqui eu não tenho espaço para discutir com minha esposa.

Eu a amo — é claro que a amo. Fazem 12 anos que estamos casados e nunca deixei de mostrar todos os dias isso a ela. Mas foi um deslize. Esquecer o décimo segundo aniversário de casamento não é tão ruim assim, é? E mesmo assim entramos em uma discussão sem fim, que voltou até nosso primeiro dia dos namorados, em que eu não havia comprado nada por estarmos juntos somente a duas semana. O que tem de mais em esquecer uma data, se o que se constrói por toda uma vida não tem dia marcado? Trago flores sempre; chocolates; bichinhos de pelúcia; e, por sair estressado do trabalho, depois de 2 horas para conseguir chegar em casa, sou recebido com um vaso chinês voador? Vaso que eu dei no nosso último aniversário ainda por cima. É por isso que eu não devo mais comprar presentes: são armas em potencial!

Por que ela faz isso comigo? Pensa que eu sou um super-homem que é capaz de tudo? “Vai fazer isso”, “vai fazer aquilo”, “você me prometeu”. Poxa! eu não consigo ser um super-herói o tempo todo. Imprevistos acontecem. Não é porque eu falei que iriámos passar o domingo na casa da mãe dela nesse final de semana, que isso era uma coisa decidida, certa e escrita nas estrelas; afinal, como eu iria saber que o Pompa estava vindo pra cá passar o final de semana com sua esposa. Ela tem que entender que não via ele desde o começo do ano passado. Eu cresci com o cara, poxa. Ela tem que entender. Não pode ficar dando chilique sempre sempre que eu falo que vou tomar umas cervejas lá na padaria do Mané, ou quando eu digo que vou jogar uma pelada de final de semana. Mas não… toda vez ela reclama. Isso quando não pegam ela e aquela perua ridícula da amiga dela no meu pé.

Como detesto aquela Thais! Sempre colocando abobrinhas na cabeça dela. Fica querendo levar minha mulher pra bater perna no shopping, faz com que ela fique o sábado inteiro no salão de beleza, quando na verdade deveria estar comigo. Aquela mulher não presta. Deve ser por conta  dela que a Vivi deu agora pra jogar coisas em mim! Ao invés de fazer o que precisa fazer fica fofocando com aquela tiazona de trinta e seis anos. Não me conformo com isso.

Escrito por Renato T

15 de novembro de 2009 em 1:48 PM

Publicado em Crônicas

Diálogo com um moribundo.

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— Mais chá?

— Sim, por favor — respondeu o garoto.

— Senta um pouquinho, ficar em pé vai te cansar cedo ou tarde.

— É chá de quê? Ah… e sobre o que estávamos falando?

O velho sorri ligeiramente e engata:

— Não me lembro mais. Essa minha memória já não é mais a mesma. E também não faz diferença.

— Como não faz diferença? Era algo importante…

— E que diferença isso faz? Logo mais você também vai esquecer e acabará um velho moribundo, como eu, se lamuriando das coisas que ficou cavucando para encontrar e que descobriu não serem tudo que esperava. Não é melhor deixar as coisas correrem mais naturalmente ao invés de tentar modifíca-las o tempo todo?

— Ué, não acha que eu perderei muito mais se esperar que as coisas venham até mim ao invés de correr atrás delas?

O rapaz toma um gole de chá, se senta e se reencosta na poltrona bem acolchoada. Agora era como se a conversa tomasse ares mais leves, quando, na verdade, se mostrava cada vez mais e mais densa. Reparava na meia-luz que entrava pela janela e refletia na xícara de chá sobre a pequena mesa. Daonde olhava era engraçado ver as cores verdes do chá se espelhando sobre o mogno.

Conforme puxava a xícara para seu colo, viu o silêncio transparente que o velho senhor exaltava. Tomou fôlego e continuou:

— De que vale uma vida direcionada por rédeas guiadas por mãos invisíveis?

De subito os olhos do velho arregalaram-se, como se aquela verdade sagrada fosse incontestável, afinal, “como poderia ser diferente”?

— O senhor acha que está tudo escrito? Me diga: não poderia ser diferente se o senhor quisesse?

…….

Escrito por Renato T

7 de novembro de 2009 em 2:32 PM

Publicado em Crônicas

São Paulo.

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Dentro do metrô paulistano é que vemos a maior quantidade possível de bizarrices por m² do país. O movimento é grande e a variedade enorme, sendo possível encontrar todos os estados do Brasil em um só lugar. Sendo assim, o metrô paulistano parece um dos melhores lugares para se observar pessoas.

Pois bem… estava eu, neste último sábado no metrô Bresser — que não é nem de longe um dos mais movimentados — esperando duas amigas para irmos para a Paulista. Chega uma hora que observar os metrôs indo e vindo do Brás cansa e, apesar de não poder negar que é uma bela vista, voltei para as catracas, aonde se tinha uma visão total das pessoas que passavam. Alguns jovens (pelos rostos eram quase meninos, mas enfim…) conversavam e pareciam estar se juntando ali para depois sair. E era gente indo e gente vindo, sem findar. Várias tipos diferentes de pessoas: altas, baixas, gordas, magras, com e sem cabelo, com cabelo quietinho e outras com cabelo mais revoltado, roupas de todas as cores — vi até um cidadão com uma toca vermelha que me lembrou um desenho animado —, roqueiros, pagodeiros, punks, góticos, e até, incrivelmente, tinha gente normal.

Fiquei nesse passa tempo de observar os outros por alguns 30 minutos, depois minhas amigas finalmente chegaram.

— Que demora!

— Foi culpa dela — disse uma, apontando rapidamente para a garota do lado.

— Não pude sair antes de comer — retrucou a outra e emendou algumas palavras que não ouvi bem. Logo depois continuou com outro assunto — Nossa!, quando estávamos subindo estava descendo uma garota com o amigo, namorado, peguete, ou o que quer que seja, que estava quase pelada.

Olha, não é preconceito, as pessoas reparam…

— Eu vi — disse eu —, não era namorado ou coisa do tipo. Estavam aqui do meu lado. Ficaram esperando os amigos quase uma hora também — aproveitando para cutucar.

— Ele está bravo — disse a primeira para a segunda. E continuou — Já disse que a culpa foi dela.

Depois de uma pequena discussão decidimos seguir o planejado: Av. Paulista. E lá fomos nós. Metrô Bresser: gente, gente, gente, de todos os tipos, jeitos e estilos. Sé e baldeação para a linha azul: mais gente diferente e estranha. Por último, uma última mudança, da linha azul para a linha verde e, enfim, Consolação.

A Av. Paulista é um lugar muito interessante à noite: é um lugar que dificilmente para e que, mais que no metrô Bresser, se encontra diversas pessoas diferentes, a maioria das quais alternativas. Foram-se aí minutos de caminhada para se movimentar de uma ponta a outra e foi uma caminhada digna de alguns puxões, para evitar que eu fosse cantado, indevidamente, por pessoas de gostos alternativos demais para mim; mas finalmente chegamos ao lugar no qual tomamos um sorvete — é, eu sei, se movimentar da Zona Leste pra Paulista simplesmente por um sorvete é no mínimo…. enfim… o importante é a companhia — e voltamos. Tanto na ida quanto na vinda, mais gente diferente: gays, lésbicas, skatistas, hippies, bruxas e vampiros — era halloween, para ajudar — etc, etc, etc. Algumas das figuras foram dignas de observação: uma skatista bonita, um cara gigantesco todo pintado e furado, alguns dreads, gente com a cara toda maqueada. No fim, a mesma coisa na volta da Consolação até a Sé, com um pequeno diferencial que foram dois cidadões realmente chatos e talvez bêbados, insistentemente puxando tentando puxar assunto com minhas amigas. Da Sé até a Bresser, novamente, para deixar as meninas e depois haveria mais uma pequena viagem, dessa vez até o belém.

De novo na Bresser, já sozinho, livre pra olhar ao redor, em uma estação praticamente vazia, sentei em uma das cadeirinhas e fiquei escutando uma conversa em italiano de um casal, que eu tive uma forte impressão de serem verdadeiros italianos e não só estudantes, atrás de mim. Assim que o metrô em direção à Sé chegou, ambos embarcaram e eu voltei aos meus pensamentos: “São Paulo é realmente a minha cidade: acho que não aguentaria ver as mesmas pessoas todos os dias, ainda que seja bem estranho encontrar todos os tipos de uma única vez, em uma única noite, num período de duas horas. Variar um pouco faz bem. Como será que me sentiria estando em um lugar em que sempre encontrarei as mesmas pessoas, somente dotadas de diferentes rostos? Provavelmente muito entediado! Prefiro assim: todas as cores, formas e sabores dentro de um único lugar! Apesar de que aquela italiana…….” Depois disso nada de produtivo saiu da minha cabeça.

E assim foi……… depois de um dia em que basicamente TODOS os estilos de pessoas passaram diante dos meus olhos, dei sinal pro metrô parar (rs) e peguei meu rumo pra casa.

Escrito por Renato T

4 de novembro de 2009 em 9:32 AM

Abertura!

com um comentário

Olhem só como são as coisas: eu, empacado no trabalho, atrasando todo serviço por preguiça, lá fora caindo o maior temporal e eu escrevendo um post de abertura para um blog sobre crônicas.
Pois é, parece que a o tempo não da uma trégua na terra da garoa. O pior é que a cidade de São Paulo basicamente para em dias de chuva.
Na noite de chuva: “Radial Leste parada”, “Marginal Tiete com ‘x’ quilômetros de congestionamento”, “Metrôs lotados” é… não tem como. Às vezes até daria pra aguentar, mas a chuva vem de súbito, e nos pega desprevinidos: Quem aí tem um guarda-chuva?
Claro, existem pessoas em piores situações: ficar preso num engarrafamento, dentro de um ônibus com algumas centenas de pessoas por metro quadrado definitivamente parece muito pior que ficar trancafiado dentro de um carro dentro do túnel Ayrton Senna. E é claro que no dia seguinte (amanhã, terça-feira) haverá algumas notícias do tipo “Casa desaba no morro ‘y’ e mata ‘z’ pessoas”
Como ficamos, então? Molhados!, obviamente. Por quê? Bom… creio que São Pedro tenha dado o troco pelo São Paulo ter batido no Peixe ontem.
Agora já vou indo que não é porque o Peixe perde que São Paulo pára, afinal, estudantes pegam ônibus lotados debaixo de chuva e sol.

Escrito por Renato T

26 de outubro de 2009 em 6:30 PM

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