Cracônis

As crônicas de algumas vidas sedentárias

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As vozes do Metrô

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Tenho uma rotina: Metrô de São Pauloassim como muitos, trabalho ao longo do dia e estudo à noite. Mas entre idas e vindas, gasto três horas do meu dia cruzando a cidade, passo três horas do meu dia no metrô. Por andar sempre nos mesmos horários, alguns rostos já são familiares: mulheres e homens que vão e vêm cansados após um dia de trabalho intenso, pessoas que oscilam entre uma leitura e um cochilo… Contudo, há algo que – embora, para muitos, passe desapercebido – sempre muda: as vozes do metrô!

Ouvir o anúncio da próxima estação sempre me faz imaginar quem está por trás daquela voz: será novo, velho, experiente na profissão ou um novato?! É casado, com filhos? Solteiro? Como será o seu rosto?!

Muitas vezes, ao embarcar, estou perdida em meus pensamentos até que a voz profere alguma mensagem. Certa vez, retornava para casa, quando ouvi a voz de galã dizer: “Próxima estação: São Joaquim”. O som que saiu dos auto-falantes era grave, sedutor… Se o dono daquela voz for tão bonito quanto ela, é um pecado o fato de ele trabalhar no subterrâneo de São Paulo e não nas telinhas da tevê!

Há vozes tímidas, em sua maioria feminina, que me fazem pensar que a condutora do trem é novata no trabalho e, por isso, tem vergonha de falar para o público… Ah! Não posso deixar de mencionar que, em raríssimas ocasiões, temos a presença de vozes com sotaques no metrô paulistano! Sim, já tive a honra de ouvir um “Prrrrróxxxima issstação, Braiiis”, que me trouxe à mente lembranças da Cidade Maravilhosa.

Atualmente, o governo está atualizando os trens da cidade. Mais novos e com ar condicionado, os novos veículos dão mais conforto à população. Todavia, a voz para todos eles é programada como aquelas que ouvimos nos aeroportos. É a tecnologia, alguns dizem. Para mim, entretanto, é apenas o lamento de não ter a oportunidade de ouvir as vozes do metrô.

Escrito por Fernanda Rodrigues

11 de julho de 2010 em 3:16 PM

A noite, a volta e o senhor da lotação

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Saí da faculdade mais tarde do que o costume. Acabada de tanto cansaço, só queria tomar um bom banho e ir dormir. Da sala de aula, ainda consegui rumar até a estação de metrô, conversando animadamente com minhas amigas; contudo, já no vagão, o sono me dominava.
Desci na última estação daquela linha (ou na primeira, como preferir) e parti em direção ao ponto de ônibus. Só mais dez minutos, pensei, e finalmente chegarei em casa.
já no ponto, entrei na lotação que, de vazia, rapidamente fez jus ao nome e se encheu. Quando o motorista estava prestes a partir, ouvi uma voz dizer:
- Abre a do fundo, motô!
Já não havia mais espaço; as portas se abriram e um senhor entrou e parou nos degraus próximo à porta. Era negro, pouco mais alto do que eu, cabelos raros e barba por fazer (ambos grisalhos, quase brancos). Sua roupa era velha e suada; ele, parecia ter vindo de longe.
O ônibus partiu e, sem querer, aquele senhor se encostou em mim:
- Desculpa, mocinha – disse ele humildemente encabulado. Ao ver a minha cara surpresa com as escusas, completou – encostei em você sem querer.
Abri um sorriso e disse a ele que não precisava se desculpar. Acho que depois de tantos ônibus e metrôs lotados durante o horário de pico, desacostumei com a simpatia e gentileza por parte dos outros usuários, por isso minha reação foi sorrir. Este fato que o surpreendeu, pois acredito que ele esperava um olhar de desprezo ou algo parecido, coisa que não fiz. Sabia que o senhor não tinha culpa por ter se esbarrado em mim.
Passados alguns minutos, percebi que chegava próximo ao meu ponto e dei sinal. Ele, por sua vez, ao perceber que eu iria descer, me deu passagem e, quando a lotação estava prestes a abrir as postas, disse-me carinhosamente:
- Tchau, mocinha, boa noite!
- Boa noite para o senhor também! – respondi com um sorriso.
- Vai com Deus e bom descanso!
- Para o senhor também, um bom descanso!
Fui para casa com a imagem daquele senhor na minha cabeça. Naquela noite, dormi em paz.

Escrito por Fernanda Rodrigues

30 de abril de 2010 em 2:44 PM

A estreia de um sonhador

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Era domingo e a família de André voltava da casa da matriarca da família. Pai, mãe e filho entraram na estação de metrô, que já sofria o efeito monótono do final do fim de semana. Tudo era nostalgia, entretanto, algo chamou a atenção do pequeno André. Letras garrafais diziam: “NÃO PERCA ESTE ESPETÁCULO! VENHA VER A NOSSA SELEÇÃO DAR UM SHOW!”. O menino correu até o cartaz, ao passo que o desejo inato de ver a seleção canarinha jogando só aumentava.

            O anúncio, pregado na parede daquela estação de metrô, fez o garoto sonhar: via-se em meio à multidão, sendo filmado pela maior emissora de tv. Depois, os craques que saíam do vestiário, subiam as escadas do túnel e surgiam no gramado! Ah, o verde gramado!… André devaneava, quando sentiu uma mão sobre o seu ombro. Olhou para o alto e sorriu:

            – Pai, me leva?! – pediu o menino, não somente com palavras; mas, também, com o olhar.

            – Filho… – o pai olhou rapidamente para a mãe e, em seguida, respirou fundo – acho que o pai não tem dinheiro para comprar esse ingresso. Deve ser muito caro…

            André abaixou a cabeça, enquanto seus pais sentiam-se frustrados. Embora não fossem paupérrimos, também não eram ricos. Pertencer à classe média era a angústia dos pais de André. Eles queriam fazer a vontade do filho; todavia, tinham a consciência do orçamento apertado.

            Os três embarcaram no vagão do metrô em silêncio; cada um, mergulhado em sua tristeza pessoal. Ao chegarem a casa, a mãe foi colocar o filho para dormir. Nada como uma boa noite de sono para mandar a dor embora; contudo, os pais de André não se esqueceriam do episódio tão cedo. No dia seguinte, o pai resolveu mobilizar a família: ligou para os avós, para os tios, para os padrinhos do menino, com a tarefa de fazer uma vaquinha. Como o aniversário de 9 anos do menino estava chegando, nada melhor do que realizar o sonho do guri. Se dependesse dele, seu filho veria a seleção brasileira jogando a final da Copa do Mundo!

            A família conseguiu reunir o dinheiro necessário, o problema maior foi comprar as entradas. Não é todo o dia que a Copa do Mundo é disputada no Brasil. Então, conseguir um lugar no estádio era mais difícil do que correr uma maratona. Mas tudo pela realização do sonho do pequeno André! Horas e horas em uma fila embaixo de um sol escaldante e lá estava o ingresso comprado.

            Alguns meses após o episódio do metrô, o pequeno acordou com sua família toda em seu quarto. Era o grande dia. Estavam presentes pais, avós, tios, padrinhos, amigos da família. Todos queriam ver a carinha feliz da criança ao saber que sim, ele estaria na final do mundial!

            – Filho, acorda…

            – Mas, já, mãe… Me deixa dormir mais um pouquinho…

            – Nós temos um presente para você – disse o pai.

            A palavra “presente” despertou o menino:

            – Que presente?!

            – Esse. – o pai passou o envelope com as entrada para o filho que não acreditou no que tinha nas mãos.

            Passado o momento de surpresa, pai e filho foram se arrumar. A preparação era, não só um momento de felicidade, mas de cumplicidade entre os dois. Aquela era a primeira vez do garoto em um estádio de futebol, então queriam aproveitar ao máximo.

            Durante o caminho, foram conversando. Os olhos brilhando, o entusiasmo aumentando gradativamente. Quanto mais se aproximavam do estádio, mais a multidão crescia. Todos com um só propósito, todos com a mesma expectativa.

            Já na arquibancada, ouvia-se a música vibrando dos tambores dos torcedores. Diferentemente de um clássico onde duas torcidas concorrem para saber quem é a melhor, a participação das pessoas durante a Copa era unicamente torcer pela mesma equipe. Quase não havia torcedores adversários. A vibração era singular; a participação, intensa.

            Os times entraram em campo, os corações batiam forte. O pai de André segurou a mão do menino. Os dois sorriam. Todos sorriam. A felicidade e animação duraram quase toda a partida. Estavam alegres até que o atacante adversário calou a nação brasileira nos 45 do segundo tempo. Os canarinhos levaram um gol.

            André e seu pai não acreditavam no que seus olhos viam. Faltavam apenas dois minutos para o término do jogo. Somente com um milagre nossa seleção empataria… O milagre não veio. Perdemos a Copa.

            Para o menino, restou apenas o fim amargo da sua estreia como torcedor, o silêncio da volta para casa e o vazio da derrota de sua amada seleção.

Escrito por Fernanda Rodrigues

2 de abril de 2010 em 9:01 PM

Ritual Diário

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Aquilo se tornara um ritual diário: acordava, ajeitava meu quarto e ia para a cozinha tomar café da manhã. A essa hora, ele aparecia. Pousava na antena do vizinho, de forma que tinha toda a visão do que eu fazia: via-me esquentando o leite no micro-ondas, pegando uma fatia de pão de forma no armário, retirando a xícara do aparelho, passando manteiga na fatia de pão…

Ele observava a tudo discretamente, até que sentia a necessidade de ser visto. Do alto da antena, enchia o peito e cantava:

- Bem-ti-vi! Bem-te-vi!

Eu, então me levantava de minha cadeira e saía no quintal para vê-lo:

- Oi, querido! Você já chegou?!

- Bem-te-vi! Bem-te-vi! – ele respondia animado.

- Como estão as coisas?! – dizia sorrindo – Quer pão?!

- Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Não me lembro ao certo quando aquele Bem-te-vi começou a me visitar, só sei que ele me fazia muito bem. Era ótimo ter contato com a natureza, ainda mais vivendo em uma selva de pedras como São Paulo. Sem contar que o fato das visitas se tornarem diárias, me fez sentir especial de alguma forma. Era tão bom saber que aquele serzinho de peito amarelo vinha me visitar, sem exigir absolutamente nada em troca…

- Bem-te-vi! – ele cantava!

- Bem-te-vi! – eu assobiava.

Então, ele voava.

E eu… Bem, eu ficava a esperar a visita do dia seguinte.

Escrito por Fernanda Rodrigues

21 de fevereiro de 2010 em 12:09 PM

Publicado em Narrativa

Medo

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Pela primeira vez, sentiu medo. Medo de estar sozinha; mas, mais do que isso, de ser sozinha. Sentiu medo de envelhecer e não ter ninguém para relembrar sua infância, para compartilhar as suas dores. Sentiu medo de não ter alguém para perpetuar a espécie ou, simplesmente, para dar um abraço. Logo ela que sempre diz que “tudo vai ficar bem” sentiu medo de não ter alguém que lhe dissesse que tudo ficaria bem. A solidão lhe trouxe medo. O medo de estar em meio à multidão e não ter ninguém com que pudesse contar.

Sentiu vontade de gritar, de correr para longe, de sentir o vento no rosto, de chorar… Acabou não fazendo nada: o medo de ser ouvida, de cair e ralar os joelhos, das lágrimas lhe fazerem parecer fraca a paralisou por completo.

Escrito por Fernanda Rodrigues

14 de novembro de 2009 em 11:02 AM

Publicado em Crônicas

Eles

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Ela lia notícias, estudava línguas, pensava somente em si. Era uma garota muito dedicada, até que um dia ele apareceu… Ele, então, roubara-lhe as notícias, sentira sua língua, e ela passou a pensar no “nós”… Ele desestruturou o castelinho por ela perfeitamente construído: viajaram o mundo com uma mochila nas costas, lutaram por causas, saíram da redoma de vidro, brigaram, se amaram, se separaram… Seguiram rumos distintos: ele teve a sua vida guinada – ainda que sem querer – por um novo caminho e ela… Bem, ela voltou para as suas notícias, suas línguas, seu egocentrismo.

Escrito por Fernanda Rodrigues

8 de novembro de 2009 em 10:19 PM

Publicado em Crônicas

Começo…

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Sentia o sol no rosto, o calor lhe massageava as faces. Apesar de tudo ter dado errado nos últimos dias, sentia – pela primeira vez – a paz invadindo sua alma. Não aquela Pax Romana que fingia para os outros em uma tentativa de não demonstrar sua fraqueza. A paz que lhe invadia a alma era de um tipo diferente, daquelas verdadeiras, que lhe preenchia por completo com uma tranqüilidade pura.

Andava com os olhos semicerrados, pensava em sua existência.Pensava em não pensar. Desistira de encontrar os porquês. Desistira do seu perfeccionismo exacerbado, de tentar ter o controle de tudo e de todos. Desistira de todas as tentativas frustradas que lhe escaparam como água entre as mãos e de todos os métodos infundados.

Naquele momento, queria apenas sentir o sol do início do verão. Caminhar calmamente. Ouvir os pássaros. Sentir o calor. Manter o foco num mundo só seu. Estava aliviada. Seus ombros não pesavam mais e, ainda que o Fantasma tentasse lhe atormentar, não conseguiria. Dominou os seus medos, exorcizou seus anseios, aprendeu… Trilhou um novo começo. Seguiu em frente. E, então, sorriu.

Escrito por Fernanda Rodrigues

3 de novembro de 2009 em 12:53 PM

Publicado em Crônicas

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